O saber do analista


Tenho 31 anos. Sou leitor regular de sua coluna e grande admirador de seu trabalho. Esse foi um fator importante para eu escolher o curso de psicologia como segunda graduação. Você deve receber centenas ou milhares de e-mails toda semana. Mas gostaria que me dissesse quais as características mais relevantes do terapeuta. As que eu devo levar em conta, na escolha de um analista. Estou procurando me informar sobre isso, pois pretendo trabalhar com uma só pessoa, ao longo dos próximos anos. Faço isso menos pela minha formação do que para me tratar mesmo, por ter consciência de que preciso.

As características mais relevantes do analista são decorrentes do desejo de que o analisando faça sua análise. Para tanto, é preciso que o analista tenha jogo de cintura. Do contrário, ele aumenta a resistência natural do analisando ao trabalho. Quando o analista estranha o que o analisando diz, tem de fazer de conta que não estranhou. Quando está contrariado, tem de se calar. Do contrário, a análise acaba antes de começar.

O lugar do analista é o do morto que não tem sentimentos. Queira ou não, o analista tem de se conter, e ele sabe fazer isso. Só se interessa, durante a sessão, pelo que ainda está por ser dito. Procura fazer o analisando falar, para que este depare com seu inconsciente e assim possa se liberar, deixando de responder aos mandatos alheios e se tornando sujeito da própria história.
A escolha do analista é decisiva. Mas a gente só descobre a verdadeira razão da escolha através da análise. Porque o coração tem razões que a razão não explica. Freud só descobriu o inconsciente porque acreditou nesse provérbio.

É bom saber que você quer sobretudo se tratar. Porque essa é a condição para se tornar um analista. O saber analítico o sujeito adquire no divã, ou seja, falando e escutando o que disse, ao contrário do que se passa normalmente, no dia a dia. Na sessão, o sujeito se escuta porque a escuta do analista o leva a isso. Trata-se de uma escuta que faz a palavra do analisando ecoar.
Formar-se, no caso do analista, não é ingurgitar conhecimentos, mas saber escutar cada vez mais e melhor.


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