Fora do tempo


Tenho 24 anos. Meus pais traçaram uma linha que eu devo seguir e não autorizam nenhum desvio. Comecei a ter crises de pânico na empresa e estou fazendo terapia. As crises são decorrentes do que passei na vida. Fui abusada na infância por um vizinho pedófilo, que agora foi preso pois molestava outra criança. Nunca contei nada sobre o abuso que sofri, e meus pais hoje não acreditam que o vizinho seja culpado. Na cidade onde moramos, todos estão contra a mãe da criança, que ousou fazer a denúncia. Admiro a coragem dela.

Meus pais são evangélicos e eu até frequento a igreja, mas nunca me batizei. Não me deixam usar calça comprida ou cortar o cabelo. Quando comprei a primeira calça, minha mãe surtou e foi parar no hospital, dizendo que eu a envergonhava. Resolvi sair de casa porque não dependia mais financeiramente deles. Comprei várias calças, maquiagem, bijuterias. Um dia ela viu e jogou tudo fora. Foi quando eu me desliguei emocionalmente dela e não consigo mais ter dó.

Continuo dando dinheiro para os dois, porém quero distância. Não adianta. Minha mãe é intrometida. Aparece, de repente, no meio da minha sessão ou telefona para a terapeuta fazendo perguntas. Por que meus pais são incapazes de reconhecer o que fiz para eles? Por que nunca me agradecem? Por que não respeitam minha privacidade?

É bom que você tenha desautorizado seus pais de traçar uma linha para a sua existência. Que você tenha deixado de ser objeto do desejo deles e agora seja sujeito do seu desejo. Trata-se de uma grande virada.

A distância que existe entre seus pais e você é tal que você foi abusada e eles não somente não se deram conta desse fato como não acreditam que o vizinho seja pedófilo e deva ser incriminado. São vítimas de uma religiosidade, que é uma obediência cega. Perderam completamente o senso crítico. Vivem como na época em que as mulheres não usavam calça comprida — como há mais de meio século. Vivem fora do tempo.

Eles pedem a você um amor incondicional, análogo ao que têm pela igreja evangélica. Por isso, não reconhecem o que você faz e não respeitam sua privacidade. Eles não vão mudar porque não se dispõem a isso. Já você mudará quando entender que eles a colocam numa posição em que ninguém consegue ficar, a posição impossível de quem não pode ter um desejo próprio. A partir de então, você não vai mais se fazer tantas perguntas sobre seus pais e vai simplesmente viver a sua vida. Poderá se separar sem romper, pois será livre.

Por Betty Milan Tags: igreja, repressão, síndrome do pânico

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