A identidade da coletividade expressa na figura feminina de ensaio sobre a cegueira

Antes de iniciar a analise, achou-se necessário trazer um pouco da biografia do autor – José Saramago nasceu em 1922 numa fazenda do Ribatejo em Portugal. Filho de agricultores trabalhou como serralheiro, desenhista, funcionário, tradutor, jornalista, romancista, poeta e teatrólogo, em 1998 ganharam o premio Nobel de Literatura. Viveu entre a ilha de Lanzarote, nas Canárias e em Lisboa, faleceu em 2010.

O enredo desse artigo trata-se de uma situação em que todas as pessoas ficam cegas, exceto a mulher do médico. Diante da cegueira, percebe-se que as pessoas não conseguem conviver em harmonia com as outras, visto que, o mundo foi feito para quem vê, e, diante deste fato, as pessoas desenvolvem instintos nada humanos.

Para que o objetivo deste trabalho seja atingido, faz-se necessário ressaltar a diferença de gêneros: o termo "sexo" segundo a sociologia é utilizado para definir as diferenças anatômicas e fisiológicas que definem o corpo masculino e o feminino. Já "gênero" é um termo que se refere às diferenças psicológicas, sociais e culturais entre homens e mulheres. Sendo assim, o gênero está ligado diretamente à identidade construída da masculinidade e da feminilidade. A diferença entre homens e mulheres é fundamental já que, são definidores de comportamentos desiguais.

José Saramago trouxe para este ensaio em análise a figura feminina dotada de visão para representar a coletividade ficcional que não enxerga no mundo do livro. A escolha por essa figura parece fazer referencia a visão negativa que o autor tinha diante da humanidade, visto que, a figura feminina, em quase todas as culturas, é repassada como educadas para serem gentis e passivas e não donas de visões e consequentemente de fala.

Somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder (Foucault, 1987, 180).

A complexidade da figura feminina coletiva nesta narrativa parece mostrar o que existe de melhor no ser humano: bondade, sensibilidade, consciência de si e o respeito ao próximo. Essa mulher possui olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo, chegando a se assemelhar a uma criança ou a um poeta que tem a sensibilidade de vê pela primeira vez, o que de tão visto, ninguém vê, e, assim, se apresenta como símbolo de todas as esperanças e vale ressaltar que, também simboliza o elemento feminino que existe em cada ser, independente do seu sexo.

A voz feminina surge da mulher do medico. É a força que da movimento a narrativa. Essa força citada é advinda da visão, e também da circunstancia que destaca e a torna líder de seu grupo, como se pode observar na passagem:

[...] tu não estás cega, disse a rapariga de óculos escuros, por isso tem sido a que manda e organiza, não mando, organizo o que posso, sou, unicamente, os olhos que vocês deixaram de ter, uma espécie de chefe natural, um rei com olhos numa terra de cegos, [...], se assim é, então deixe-me guiar pelos meus olhos[...] (SARAMAGO, 1995, p.255).

Na trajetória da personagem principal, se observa os fatos mais incertos, como: diante da cegueira coletiva, ela é levada a transformar-se de uma simples dona de casa a líder, pois, coloca o bem estar do grupo acima dos seus interesses individuais a ao mesmo tempo luta pela própria sobrevivência.

A tragédia desperta nela uma irreconhecível força interior, que a faz tornar a voz proclamadora da resistência contra várias formas de opressão instaladas no confinamento dos cegos.

Com a criação de uma personagem protagonista-mulher de características épicas e forca incomum, José Saramago oferece-nos em Ensaio Sobre a Cegueira uma possibilidade marcante de análise da representação feminina na literatura contemporânea. O exercício imaginário de uma utopia as avessas – na qual a mulher constrói sua identidade dentro do mais inconcebível caos, a partir da suspensão das antigas convenções sociais – permitir ir além da simples representação (Raquel Wandelly em A Cegueira dos Gêneros).

Ensaio sobre a cegueira coloca a mulher em uma arena de lutas, já que a personagem principal se constrói enquanto sujeito da enunciação. A voz narrativa da terceira pessoa s constrói enquanto sujeito da enunciação e, a narrativa em terceira pessoa se mistura no discurso com seu eu masculino e, a partir dai, gera dois timbres – o masculino e o feminino e, diante dessa mistura começa a construção da identidade coletiva. Nessa perspectiva: Katrhyn Woodward, Hall e Boaventura Santo (2000) vão enfatizar em suas pesquisas que "a construção da identidade é tanto simbólica, quanto social. A luta para afirmar as diferentes identidades tem causas materiais" e, que a representação inclui as pratica de significações e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeitos. É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentidos a nossa experiência e aquilo que somos.

Sob esse viés, nota-se que a identidade dos personagens de Ensaio Sobre a Cegueira é mostrada pela profissão que exercem, pelas características físicas, grau de parentesco e não a partir de um nome próprio: "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos" (SARAMAGO, 1995, p. 262). Tal definição de identidade que esse fragmento traz, pode-se observar no dicionário Aurélio Século XXI[1], que define:

Conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais etc.; ou ainda, aspecto coletivo de um conjunto de características pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido (FERREIRA, 1999).

Faz-se pertinente questionar a identidade, pois se vive no mundo, em que a dinâmica da comunicação potencializa o que não é essencial ao ser – a cada dia as informações são transformadas, e isso faz com que se percam certos sentidos com relação ao mundo, a globalização, a comunicação. Circulam-se por ai, se saber direito o que somos, nem para que se servem, nem que sentido tem a existência."[...] bando de cegos que vagam a deriva" (SARAMAGO, 1995, p. 255).

Todas as mudanças estariam afetando, igualmente, as identidades individuais, isso tem levado a desestruturação da percepção que todos nos temos de nos mesmos, como se fossemos sujeitos unos nas características que compõe nossa personalidade. Nesse sentido, se vê na obra uma dupla desestruração das identidades – seja no individuo, diante de seu lugar no mundo social e cultural, ou indivíduos propriamente ditos.

Saramago ao se inquietar com essas sensações utiliza-se da literatura para denunciar a perda da essência humana na contemporaneidade. Neste sentido, o ceticismo do autor direciona suas reflexões ao mito da caverna[2] de Platão, pois as pessoas não conseguem enxergar a realidade deixando prevalecer o império das imagens impostas pelas tecnologias.

Sob essa ótica, se observa que o autor, vê as pessoas manipuladas, alienadas, guiadas pelo princípio de "ter" ao invés de "ser" e desta maneira se afastando de sua essência. "É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade" (SARAMAGO 1995, p.40).

Na epigrafe do livro Ensaio Sobre a Cegueira, o autor José Saramago sinaliza esta questão; "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.".

Reparar é observar o mundo ao seu redor, para, então, remodela-lo, reconstrui-lo como forma de resistência. O homem alienado não tem condições de enxergar a essência das coisas, pois o que impera é as trevas da ignorância, do egoísmo e da ganancia, o que está tão bem articulado ensaio em voga na figura dos cargos ruins.

Nesta narrativa, o leitor é encaminhado a questionar o seu papel na sociedade, as suas atitudes e com isso é levado a reconstruir seus conceitos e ver outra maneira de estar nesse mundo. A mulher do médico percebe que não é a cegueira fisiológica que precisa ser superada e sim a cegueira alienação, verdadeira vilã da história e responsável pelos riscos atuais que as sociedades estão sentindo ao perder suas tradições e identidades.

O único milagre que podemos fazer será o de continuar a viver, disse a mulher, amparar a fragilidade da vida um dia após outro dia, como se fosse ela a cega, a que não sabe para onde ir, e talvez assim seja, talvez ela realmente não o saiba (SARAMAGO, 1995, p. 283).

A perda da identidade é observada no momento em que os personagens são levados a viverem exilados das coisas mais básicas que a tornam humanos. A privação que passam, faz com que eles experimentam sensações de animalização conduzida pela violência e perda de referencia do mundo anterior.

Acha-se pertinente fazer uma ressalta com a historicidade da temática exilio, visto que, no inicio dos tempos, segundo os registros, o exilio sempre fez parte da História oficial e, consequentemente da literatura. Em gêneses – quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso, se observa a separação ontológica e primeira. No Antigo Testamento, mostra a luta do povo hebreu, pela posse de um território próprio, que muitas vezes foram obrigados a abandoná-los.

Este fenômeno vem acontecendo ao longo dos séculos, seja ele permeando por violências frutos de guerras politicas e religiosas que afastam o homem de suas raízes ou por epidemias, como é o caso dos personagens em Ensaio Sobre a Cegueira que, são levados a um manicômio, afastando-se dos demais "todas as pessoas que cegaram, e também as que com elas estivessem estado em contato físico ou em proximidades detecta, seria recolhidas e isoladas [...]" (SARAMAGO, 1995, p. 45).

O século XX foi marcado por guerras, revoluções que, por sua vez, criou uma legião de exilados, a exemplo do autor desta narrativa que viveu o exilio voluntario, e pessoas que constituíram sociedades a parte com características psicológicas e sociais bem diferenciadas. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a Revolução Russa, Guerra Civil Espanhola, Nazismo, Fascismo, Salazarismo são alguns dos exemplos de regime que dominam a Europa durante este século acima citado.

Sabe-se que a cultura nacional é construtora de identidade cultural, sendo assim, como o sujeito se posiciona diante de uma possível ruptura ao assumir características sociocultural diferenciadas? Os paradigmas devem ser revistos, pois de viver em época de crise, orientações novas devem surgir para a formação de consciências novas.

Existem sempre possibilidades de ocorrer embates ideológicos entre grupos de indivíduos de uma mesma comunidade, geralmente encadeado por diversidades – econômicas, étnicas, religiosas. O homem para participar integralmente de sua nação, deve está em equilíbrio com todos os componentes do sistema social do qual faz parte. O individuo que se desarmoniar deste grupo, possivelmente se sentirá excluído.

E isto, toma-se como exilio. Segundo Said:

O exilio é um fratura incurável entre o ser humano e o lugar natural, entre o seu e seu verdadeiro lar; sua tristeza essencial jamais poderá ser superada [...] As realizações do exilio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre (SAID, 2003, p. 46).

As palavras de Said demarcam as características da escrita literária saramagiana que produz uma espécie de saudosismo e de denuncia, pela historicidade e pelo sentimento que o autor traduz nas entrelinhas dos períodos mais sombrio que presenciou Portugal.

Diante desse contexto, a figura feminina, como citado anteriormente, historicamente vem sofrendo castrações, devido às peculiaridades de suas identidades. Saramago, ciente da condição feminina, elege a mulher do medico como a única capaz de enxergar, embora seja obrigada a escolher tal condição fazendo uso da dissimulação.

Quando a mulher do medico, oculta a condição de enxergar, ela está se auto protegendo, visto que quem procura mostrar a luz do saber aos outros, muitas vezes, sofre criticas e até repressões físicas e morais, é chamado de sonhador, de ser que se encontra fora da realidade. Perceber a realidade dos fatos de maneira clara, enquanto a maioria se mantem na escuridão, não é uma tarefa fácil. A mulher do medico soube na pele o que é isso.

Nota-se a mensagem que Saramago nos transmite, que deve nos atentar de certa forma, pois estamos também na escuridão como os prisioneiros de Platão, quando somente sentimos como eternos espectadores passivos ao que se passa na televisão e nos outros meios de comunicação sem procurar questionar se os fatos narrados, que quase sempre são manipulados, munidos de total veracidade. Muitas vezes não nos perguntamo-nos se o que apendemos, mesmo nas escolas e universidades é verdadeiro, se não estamos nos limitando somente a esfera do que os autores passam, sem buscar outras fontes de conhecimento. Diante dessa deixa, acredita-se que, não se pode ficar restrito a uma só realidade, preso pelos que manipulam a mente da sociedade, não se pode ver os fatos de um só ângulo, deve-se refletir sobre o que nos é transmitido, para que não fiquemos eternamente presos na escura caverna ou com os olhos que nada veem. A humanidade precisa da luz do velho saber. Visão que busque interagir, inteirar, integrar. O tempo do olhar é único.

REFERENCIAS

DA SILVA, Tomaz Tadeu; HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e Diferença. Ria de Janeiro: 2000.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Século XXI versão 3.0. Rio de Janeiro: nova fronteira, 1999.

FAUCAULT, MICHEL. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 1987.

SARAMAGO, José. Ensaio Sobre a Cegueira. São Paulo: companhia das Letras, 1995.

SAID, Edward. Reflexões sobre o exilio e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

2  FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio eletrônico século XXI versão 3.0. Ria de Janeiro: nova fronteira, 1999.

[2] O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz respeito à importância do conhecimento filosófico e a educação como forma de superação da ignorância, isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional, sistemático e organizado, que busca as respostas não acaso, mas na casualidade.


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