Reflexões às margens do ribeirão Paciência


Sábado passado fiz um show com os Titãs em Pará de Minas, uma simpática cidade no interior de Minas Gerais. Diz a história (e a Wikipédia) que já em fins do século XVI um povoado se formou à beira do ribeirão Paciência, na rota dos bandeirantes paulistas que se aventuravam pela região em busca do ouro. Das figuras que ali se fixaram ao longo das décadas, estava o português Manuel Batista, mais conhecido como Pato Fofo.

O Pato Fofo, como o próprio apelido atesta, devia ser um sujeito boa praça e empreendedor, pois construiu em sua fazenda uma capela dedicada à Nossa Senhora da Piedade. Em pouco tempo nascia ali o Arraial do Patofofo. Pena que o tempo tenha transformado o Arraial do Patofofo em Vila do Pará, pois se o nome ganhou em gravidade e imponência, perdeu em simpatia e originalidade.

Teria sido sensacional tocar em Patofofo, em vez de em Pará de Minas, como é conhecida hoje a pujante cidade que se desenvolveu às margens do Paciência. Mas isso não quer dizer que não foi muito bom tocar em Pará de Minas. Depois de quase 30 anos de profissão, quando você sai para fazer um show, às vezes bate uma preguiça. Puxa, deixar a família num sabadão ensolarado, para encarar um voo até Confins, e depois um busum até Pará de Minas… ficar à tarde no hotel, sozinho, assistindo a programas desinteressantes na televisão só pra matar o tempo até a hora do show… nessas horas, confesso, você se sente às vezes como um velho bandeirante paulista em busca do ouro… cáspite!

Mas quando você entra no palco, toda a preguiça – e o delírio de bandeirante paulista ranzinza em busca do ouro – se desfaz e você entende de novo (pela enésima ao cubo vez) a razão de estar ali, fazendo aquele barulho todo e entrando numa espécie de extâse coletivo com o público. A sensação torna-se, com o passar do tempo, mais que um hábito, um vício. Um vício sem efeitos colaterais, a não ser, talvez, um pouco de saudades de casa e dores nas costas de vez em quando.

Como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, numa blague que repete sempre que é apresentado no palco por Mick Jagger: “It’s good to be here. It’s good to be anywhere”. É bom estar aqui. É bom estar em qualquer lugar. Com isso ele quer dizer que o bom mesmo é estar no palco, não importa em que cidade esteja. Pois Keith, às margens do ribeirão Paciência, eu afirmo: “Foi muito bom tocar no Arraial do Patofofo!”.


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