Reforma!!!


Há dois testes fundamentais para um casal que queira se arriscar na aventura insana (e maravilhosa) que John Lennon e Yoko Ono apropriadamente batizaram de Double Fantasy: o casamento romântico, ou a união de duas pessoas pelo amor (ou a projeção que duas pessoas fazem de um mesmo e único sonho). Um dos sustentáculos principais – além de atração física e identidade espiritual – dessa fantasia, é justamente a capacidade do casal de empreender planos e projetos. A gravidez, a aquisição de um cachorro, a compra de uma casa de campo, o sonho de morar fora por um tempo, o cineminha terça à noite, a corridinha no final da tarde, aquele filminho de sacanagem antes de dormir, o passeio de bike no domingo de manhã, a ida à missa ou ao clube de suingue, a viagem de férias, tudo é fantasia dupla, tudo é imagem de um mesmo sonho em duas cabeças diferentes. Mas há dois testes cruciais nessa empreitada, e quem já passou por eles – não são poucos! -, sabem do que falo: A Viagem e a Reforma. Sim, estes são os dois quesitos principais para aqueles que querem se aventurar pela deliciosa e multipolar loucura chamada “casamento”. Se me permitem uma dica, eu sugiro que o teste seja feito na seguinte ordem: 1) A Viagem. Logo de cara, após aqueles idílicos meses em que a paixão inebria como um vinho divino, o casal deve encarar sozinho uma longa viagem. Se as pequenas irritações e descobertas desagradáveis sobre o outro não prevalecerem sobre a admiração e o desejo de continuar projetando juntos o mesmo sonho, o casal terá passado pelo teste da viagem. Parabéns!

Mas nenhum casal chegará com méritos a uma medalha de ouro (ou mesmo de prata), se não enfrentar o Segundo e tenebroso teste: 2) A Reforma. Sim, a reforma da casa, ou do apartamento (ou do sítio, da fazenda, da casa da praia, do barraco ou do apê de Nova York), chegará inevitavelmente para todo casal, assim como chegam os filhos, as reuniões de pais, as crises conjugais e as visitas inesperadas de parentes chatos (parentes do outro, claro. O nossos nunca são tão chatos). A Reforma testa o casal em toda a sua capacidade de resistência a ataques externos: sempre duram mais tempo e custam mais caro que o esperado, nunca ficam exatamente da maneira que pareciam no desenho do arquiteto, obrigam o casal a meses de convívio improvisado em campos de batalha (no caso daqueles infelizes que acreditam que é possível morar numa casa em obras…), quitinetes ou mansões alugadas, casas da sogra e até mesmo no olho da rua (em casos mais extremos), isso sem contar as reclamações dos vizinhos e dos fiscais da prefeitura. Se o casal sobreviver a tudo isso com um sorriso aberto e um jantar a luz de velas após a hecatombe, terá passado também pelo teste da reforma. Parabéns!
Bem, felicito-me, e principalmente à minha mulher- que além de grande atriz é uma obstinada mestre de obras -, por mais uma reforma (já devemos estar na nossa terceira ou quarta) que atravessamos mais ou menos incólumes, sem cicatrizes visíveis ou feridas profundas. E com muita alegria no olhar e paixão renovada no coração. Que bela vista do céu de Ipanema tenho do meu novo escritório…

Ao som, claro, de Double Fantasy.


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