Análise da obra "relato de um certo oriente" de milton hatoum

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Home > Literatura > Ficção > Análise da obra "relato de um certo oriente" de milton hatoum Análise da obra "relato de um certo oriente" de milton hatoum Editar Artigo | Publicado em: 13/05/2011 |Comentário: 0 |

 

 

ANÁLISE DA OBRA "RELATO DE UM CERTO ORIENTE" DE MILTON HATOUM

 

Andréa Francisca da Luz

A narrativa contemporânea além de figurar entre o real e o surreal procura explorar cada vez mais as dimensões do inconsciente humano, bem como as lacunas de memória que caracterizam este inconsciente. Voltar ao passado, relembrar, é um jogo de interpretação de símbolos e significados que tentam unir duas pontas: do passado real com o passado imaginado. Não há como estabelecer uma divisão entre realidade e ilusão, mas observar concepções de realidade entre distintos modos de visão.

Dentro dessa perspectiva é que o escritor Milton Hatoum escreve seu romance "Relato de um certo Oriente", lançado em 1989. O romance conta episódios de uma história que se inicia em Manaus no final do século 19, e termina em anos mais recentes. Tal obra recupera a tradição oral das "Mil e uma noites", onde o contador de histórias narra fatos e experiências passadas, sendo sua tessitura pautada pela reconstrução da memória que visa preencher as lacunas do esquecimento, bem como serve para atualizar o próprio discurso histórico-literário.

O processo de relembrar é como o encontro de alguém que após vários anos de ausência volta para casa, mas observa que embora a casa seja a mesma lhe é um objeto estranho porque este alguém também é outro, o que é justificável porque "no processo de rememorar ocorre um esforço de reordenação das imagens passadas condicionadas pelo presente do sujeito"[1].  Há na narrativa um vislumbramento onde cada objeto passa a ter um significado maior caracterizando uma consciência exótica da alteridade, onde o tempo será a grande metáfora da vida.

Em "Relato de um certo Oriente", a personagem principal, que não é nomeada, relembra fatos de sua infância ao escrever uma carta para seu irmão que mora em Barcelona, na Espanha. Essa narradora-testemunha busca recompor o passado através da memória, porém numa atuação coadjuvante, pois a mesma era impossibilitada de agir dentro deste passado, uma vez que não era reconhecida "oficialmente" pela família, daí o motivo de sua ida para São Paulo favorecida pelo marido de Emilie, e de sua internação em uma clínica psiquiátrica. Voltar para Manaus após este período de internação significava recompor o próprio Eu, que fora fragmentado pela ilusão de se ter um modelo tradicional de família, desejo que a narradora não teve o privilégio de usufruir quando criança.

Como todo contador de histórias, a protagonista enfatiza tanto os objetos e a decoração da casa, servindo estes de elementos sinestésicos que conduziriam ao passado, como é o caso do relógio de parede adquirido por Emilie, como sobressaltar os fatos que mais marcaram sua infância, como o acidente com sua prima Soraya Ângela, onde o acidente é narrado como a parte mais dolorosa de suas lembranças.

A tessitura da obra entrelaça dois universos mnemônicos da protagonista: o exotismo da natureza amazônica e o orientalismo libanês de sua família, ambos compondo as múltiplas vozes que povoavam a infância da personagem, criando desta forma um "certo oriente", que não é mais o oriente libanês da família de Emilie, mas um novo oriente, o oriente imaginado pela personagem, onde Trípoli e Manaus são análogas porque ambas se guiam no tempo através da claridade solar e da movimentação do dia.

A descrição de um ambiente com traços orientais se esprai por todo o texto, sendo o já referido relógio de parede aquele que mais é retomado na narrativa. O próprio relógio serve de objeto de fascínio de Soraya Ângela que fixava o olhar neste observando o transcorrer do tempo. Mesmo para Emilie que não era guiada pelo tempo, o relógio tinha a função de ligá-la com seu passado num momento de silêncio e meditação, sendo este objeto o representante de sua existência na história. Afora esses objetos que remete a "um certo oriente", há também na narrativa alusão acerca do misticismo árabe, como o fato de ler o destino no fundo da xícara de café, e a utilização de palavras em francês simbolizando a influência desta língua no mundo árabe.

O discurso é formado pelo eco de várias vozes do passado que ratificam a história, e que atuam na tessitura do texto com a finalidade de servir de condutor para novos relatos, como são os relatos da própria protagonista e do tio Hakim, homem voltado para a leitura e releitura dos livros. No entanto, dentre estas vozes a que mais ecoa é a da matriarca Emilie, mulher que protege em segredo a dor de suas lembranças, e que mantém um conflito religioso com seu marido, homem generoso e que gostava da solidão, mas que não aceitava a religiosidade católica da mulher, preferindo manter-se ligado às suas tradições orientais.

Simbolizando um elo de ligação entre o Amazonas e o Líbano está o tio Hakim, filho mais velho de Emilie que nasce em terras brasileiras, sendo por isso o escolhido para aprender a língua árabe, porém em Hakim esta língua materna lhe causa estranhamento, e embora fique fascinado pela forma da escrita árabe afirma o seguinte, "embora familiar, soava como a mais estrangeira das línguas estrangeiras" (p. 50). Tal reconhecimento é na verdade o embate de sentir-se estrangeiro dentro do próprio cerne familiar, fazendo parte de um universo híbrido, ou melhor, de um outro oriente.

Podemos afirmar que o motor que impulsiona a narrativa são dois: a irremediável incapacidade de resgatar o tempo perdido, pois por mais vivas que sejam as lembranças, elas são banhadas pelas águas do esquecimento; e a tensão na escrita por querer dar conta da fugacidade dessas lembranças tentando preencher o vazio do esquecimento com a voz do outro, como na seguinte passagem, "pensava num navegante perdido em seus meandros, remando em busca de um afluente que o conduzisse ao leito maior, ou ao vislumbre de algum porto. Senti-me como esse remador, sempre em movimento, aguilhoado pela tenacidade de querer escapar: movimento que conduz a outras águas ainda mais confusas, correndo por rumos incertos" (p. 165).

Admirador da obra de Jorge Luis Borges, a qual teve seu primeiro contato quando cursou algumas disciplinas do curso de Letras da USP, Milton Hatoum mirando-se na linguagem borgeana que combina imaginação e exatidão, ou exatidão na imaginação, busca em sua obra a reconstrução de um novo Oriente através do diálogo entre culturas e da inovação da linguagem. Assim como Borges que ao comentar algumas traduções das "Mil e uma noites" critica o orientalismo e reinventa algumas noites, que são ao mesmo tempo orientais e borgeanas, Milton Hatoum reinventa o Líbano, sendo este oriental e ocidental ao mesmo tempo, ou como afirma o próprio Milton acerca das vozes que reconstroem este oriente, "Mas essa voz é também plural: diálogo de vozes entre narradores do Ocidente e do Oriente que me ajudaram a inventar, ao longo de vários anos, uma história de um certo oriente". Porém, tal história só terá significação quando o leitor, através da leitura, realiza uma elaboração produtiva do texto, e faz com que a obra torne-se um outro com o qual necessariamente ele estabelece um diálogo.

Por fim, vale acrescentar que Milton Hatoum é um romancista de uma pátria sem fronteiras, nascido e criado em Manaus, morou em Brasília, cursou Arquitetura em São Paulo, fez mestrado em Literatura em Paris, morou em Madri e Barcelona, e depois voltou à cidade natal onde é professor de Literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas. Ganhou o prêmio Jabuti com "Relato de um certo Oriente", o que por si demonstra sua capacidade de inovar ao jogar com as palavras numa profusão de imagens e sensações. Numa pátria sem fronteiras o seu território são as montanhas, os rios, as florestas todos fincados na linha imaginária das lembranças, onde ecoam as vozes entrecruzadas das culturas que embalaram sua infância e adolescência. De sua história brotam o misticismo árabe e o amazonense que se fundem para criar um novo Oriente.

 

 

REFERÊNCIAS

HATOUM, Milton. Relato de um certo oriente. São Paulo: Cia. Das Letras, 2008.


[1] BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos.3ªed. São Paulo: Edusp, 1984, p. 402.

 

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Sou uma alma crítica, que enveredou pelas trilhas literárias baudelaireanas, verlainianas, osmanianas, dentre outros caminhos ou (des)caminhos que as letras podem nos levar.

Ler, tornou-se o ópio dessa alma. O vício que a alimenta e instiga seus desejos, seus delírios em todos os processos de criação.

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