A comédia aristofânica - uma possível leitura de lisístrata

A COMÉDIA ARISTOFÂNICA - UMA POSSÍVEL LEITURA DE LISÍSTRATA

Andréa Francisca da Luz

De acordo com Aristóteles, "a poesia tomou diferentes formas, segundo a diversa índole particular (dos poetas). Os de mais alto ânimo imitam as ações nobres e das mais nobres personagens; e os de mais baixas inclinações voltaram-se para as ações ignóbeis", compondo estes últimos, vitupérios, e àqueles, hinos e encômios. Ainda segundo o filósofo, a comédia é uma forma de imitação dos homens inferiores a partir de suas características mais ridículas, pois é exatamente com a elaboração estética do exagero e da caricatura que a comédia irá trabalhar.

Para o filósofo Socrátes, tanto a comédia como a tragédia estariam relacionadas, uma vez que ambas trabalhariam com o elemento humano, sendo que a primeira apresentaria o defeito do caráter humano, e a segunda mostraria o que há de mais virtuoso e nobre neste caráter. Além do mais, ambos os gêneros são de fundo dionisíaco, daí o poeta poder se dedicar aos dois gêneros.

Servindo de "válvula de escape para o instinto sexual reprimido e para o reflexo de revolta contra o costume ou poder estabelecido" que a tragédia representava, surge a comédia a partir dos cantos fálicos, do culto a Dionísio (deus da fertilidade e do vinho), de Pã e de outros deuses do campo e da floresta. Como maior representante deste gênero temos Aristófanes, poeta ateniense que viveu no século V a.C., e que utilizando-se da ironia e do sarcasmo, escreveu comédias que atacavam o sistema e o tipo de regime político de sua época.

Favorável ao pan-helenismo, Aristófanes acreditava que a paz entre as cidades gregas tornariam a Grécia mais forte contra os adversários, e é partindo de tal concepção que ele escreve Lisístrata. Nesta peça, o poeta coloca a protagonista como o elemento que irá desafiar as normas vigentes, bem como suas limitações na qualidade de mulher, em prol de uma nova ordem, a paz entre as cidades do mundo helênico. Para isso, Lisístrata teria de lutar contra a guerra e unir as mulheres gregas em torno deste objetivo. Para conseguir tal façanha ela se vale do seguinte ardil: todas as mulheres fariam uma greve de sexo.

"se as mulheres se reunirem aqui - as espartanas, as beócias e nós, atenienses - então, nós todas juntas salvaremos a Grécia".

Mais adiante, a heroína afirma que para que os objetivos possam ser atingidos todas as mulheres devem "passar sem sexo, absolutamente".

Vale salientar que na Grécia antiga a mulher não era considerada cidadã, no mínimo era tida como um bem de posse, assim como os escravos e as propriedades, tendo primordialmente como função a procriação e a satisfação do prazer masculino. Em Lisístrata podemos observar esse fato na seguinte passagem,

"Ó  raça vil e amaldiçoada! Não é de se admirar que façam tragédias a nosso respeito. Não passamos de parceiras sexuais".

Era vetado a mulher participar de qualquer questão pública, e muito menos interferir em assuntos de guerra. No entanto, Lisístrata infringe as leis e declara abertamente:

"sou uma cidadã livre"

"a guerra vai ser um assunto para mulheres"

O próprio fato de protestar contra um magistrado, homem da ordem e da lei, e representante do poder, é visto como um insulto indigno de ser proferido por uma mulher, como pode ser visto na peça através não só da fala do magistrado, mas também, no trecho abaixo que registra a fala do chefe dos homens,

"Não é terrível, na verdade, que falem a respeito dos negócios de Estado e tagarelem sobre escudo, sendo mulheres?"

A mulher restava apenas calar e aceitar as decisões dos homens, mesmo que estas decisões "idiotas" exterminasse todos eles numa guerra entre seus pares.

Diferente da tragédia, em Lisístrata não há a atuação dos deuses com um destino inexorável aos homens. Aqui, os próprios homens tomam suas atitudes e traçam seus caminhos. É a partir dessa autonomia humana que Lisístrata traça seus planos, e com a greve de sexo realizada pelas mulheres, impõe aos homens as condições necessárias para atingir a paz. Neste período a crença nos deuses já havia decaído, e a presença do oráculo na peça passa a ser observada como algo vago que ficaria aberto a interpretações de interesse particular, no qual a protagonista se utiliza.

A rendição dos homens, de certa forma, ratifica como as mulheres ao unirem-se conseguem impor seu poder dentro de uma sociedade machista e patriarcalista, pois não é apenas o discurso de Lisístrata que irá convencê-los a acabar com as guerras, mas o domínio que a figura feminina exerce quando, utilizando suas armas de sedução, atinge seus objetivos. Esse aspecto  por si só demonstra como esse homem antigo ainda é guiado por seus instintos mais inferiores, fato para o qual Aristófanes chama atenção ao trazer essa temática para a comédia.

Estruturalmente a peça inicia com caráter expositivo onde são apresentadas as personagens femininas que farão parte do desenvolver da trama, como Lisístrata, Calonice, Mirrina, e Lampito. O coro é dividido em duas facções rivais: o chefe dos homens e a chefe das mulheres, no final da peça ambos se harmonizam simbolizando a paz. Essas duas facções durante todo o decorrer da peça ofendem-se mutuamente com palavras vulgares, e o ponto culminante de tais discursos são chamados de parábase. Segundo Gassner (2005, p. 93), esse discurso "emitia os pontos de vista do dramaturgo, algumas vezes chegava mesmo a troçar de figuras eminentes que se encontravam na platéia e sem quaisquer rodeios dava nome aos bois". Como filósofo político que era, Aristófanes aproveitava para tal oportunidade para falar sobre a verdade através da mentira, do riso, da galhofa, com palavras obscenas e cenas esdrúxulas que só eram permitidas porque a Grécia já viva um regime democrático.

Apesar de considerado conservador e aristocrático, a luta de Aristófanes era contra a demagogia, sua sátira era uma crítica a um regime democrático que na prática estava corrompido, e manipulava o povo. Assim como em outras peças de sua autoria, Lisístrata é um protesto contra essa demagogia, e uma denúncia de um poder público que visava apenas ao dinheiro.

Conforme afirma Gassner (2005, p. 100), " Lisístrata, que lidera o boicote à guerra, é a personagem mais absolutamente acabada de Aristófanes e atinge uma nota de alta comédia rara no teatro do século V", isso porque a função pragmática da comédia permitia uma reflexão sobre o período conturbado da história grega, no qual Aristófanes viveu, e essa reflexão se dava através do escracho e do riso.

Referência bibliográfica

ARISTÓFANES. Lisístrata. Trad. David Jardim Júnior. São Paulo: Editora tecnoprint S/A, 1988.

BRANDÃO, Junito de Souza. Teatro Grego: tragédia e comédia. 9ªed. Petrópolis: Editora vozes, 2002, p. 71-89.

GASSNER, John. Mestres do teatro I. 3ªed. São Paulo: Editora perspectiva S/A, 2005, p. 89-103.


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