Ensaio sobre "o guardador de rebanhos" de alberto caeiro

ENSAIO SOBRE "O GUARDADOR DE REBANHOS" DE ALBERTO CAEIRO

Andréa Francisca da Luz

Ainda que nós dissecássemos todo estudo sobre a poesia de Alberto Caeiro tentando desvendar-lhe todos os sentidos e retirando o seu teor de poeticidade, ainda assim teríamos poesia, poesia em sua essência mais pura, o sumo poético que sobrevive ao corpo material do texto em que preside. Porque a poesia de Caeiro não está só na própria poesia, ela se constrói, osmoticamente, em toda natureza, em todo objeto, e principalmente no não pensar sobre este objeto; no não refletir sobre a coisa em si, mas no "é" de cada coisa, isenta de quaisquer reflexões metafísicas, porque para Caeiro "há metafísica bastante em não pensar em nada".

Essa cosmologia da poética de Alberto Caeiro, apesar de, inicialmente, apresentar-se com idéias paradoxais, reflete um raciocínio lógico de alguém que vê o homem como um ser simples e livre, o ser uno com seu meio, tão natural como o primeiro olhar de uma criança, ou como a criança, que livre de convenções e preconceitos, brinca com seus amigos sejam eles pobres, ricos, brancos, pretos, não importa, porque para ela o que é interessante é Brincar.

O brincar com as palavras, mostrando uma carga de negação, nada mais é que mostrar a afirmação de cada coisa, a sua existência real, como podemos observar no início do I canto de "O guardador de Rebanhos",

"Eu nunca guardei rebanhos,

mas é como se os guardasse".

Esse fingir que é um guardador de rebanhos cria a idéia de que ele talvez seja um pastor, mas, sem a preocupação ou a experiência do pastor que solitário vigia o seu rebanho. Ele apenas observa o rebanho, despretensiosamente, e se sente uno com ele, porque o rebanho simboliza a natureza em uma de suas formas de ação. O ato de guardar o rebanho é de forma espontânea e voluntária, como o próprio ato de pensar e de escrever do poeta, porque o rebanho são seus pensamentos.

Nosso foco central deste ensaio é o canto VIII, e logo na 1ª estrofe podemos notar a humanização da figura de Jesus Cristo, desnudado de qualquer valor místico ou mítico, como segue adiante:

"Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino".

A imagem de Jesus descer a terra e tornar-se outra vez menino, pensando como um menino, agindo como um menino, e brincando como um menino significa igualar-se aos demais seres, aos demais homens, com todas as virtudes e imperfeições destes homens. É despreocupadamente assumir essa humanização, porque ele "era nosso demais para fingir".

É importante ressaltar como a partir da 2ª estrofe Caeiro faz toda uma desconstrução da história tão popularmente conhecida sobre Jesus, note-se como o poeta cria em paralelo uma nova versão do que poderia ter sido a vida de Cristo, "e porque não há de ser a mais verdadeira", ao aproximá-lo do homem natural, criando um Jesus vivendo como qualquer homem do mundo, e sendo "eternamente humano e menino". Para Caeiro, todas as coisas são manifestação de Deus, e não apenas um homem, como acontece com Cristo, mas todos os homens assim como os seres são expressão dessa divindade, e aceitar-se como tal é o objetivo do poeta, que busca encarar a vida com simplicidade, como de fato ela se apresenta, e assim ele afirma:

"E essa criança tão humana que é divina,

é esta minha quotidiana vida de poeta".

Algo notório neste canto é a questão do olhar, não um olhar que analisa, que perscruta o objeto observado, mas o olhar de quem vê as coisas em sua essencialidade, observando a singularidade de cada elemento em separado, sem um pré-julgamento, como o primeiro olhar de uma criança, o olhar do menino que é o verdadeiro Jesus, que é a eterna criança, e que ensinou o poeta a ver nos objetos a sua verdadeira existência,

"A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as cousas".

Caeiro zomba da religião, enquanto instituição falida, e mostra a fraqueza desta nos seguintes versos:

"Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica".

Sendo esta a razão de Jesus ter criado um Cristo eternamente na cruz,

"e deixou-o pregado na cruz que há no céu".

Para que estas religiões estagnadas na fé, no molde de um tradicionalismo ridículo, o podessem adorar. De Deus ele afirma:

"É um velho estúpido e doente".

Porque esse Deus não é o verdadeiro Deus, aquele que vive no interior do homem, esse é um Deus idealizado, tirânico, ranzinza, feito para ser temido, e ser implacável com os erros de seus filhos. Difere do Deus-essência que o poeta acredita, e que simplesmente "é", que não percebe nada porque sendo Deus não precisa pensar sobre as coisas que cria.

A Criança Eterna que habita na alma do poeta, mostrar-lhe a natureza de forma pura e transparente, "me enche de sensação", do frescor das primeiras sensações, da ingenuidade que as crianças apresentam diante do novo. Pois, para o poeta a natureza fala, mas sem simbolismos, apenas exercendo sua função dentro do universo, e seguindo sua trajetória normalmente independente de nossos questionamentos.

"O Guardador de Rebanhos" reflete a clara simplicidade de existir, é o homem que vê a si mesmo, e que mesmo sozinho se harmoniza com o todo, e esse todo existe anterior às nossas concepções, por isso o poeta vê as coisas sem os olhos de um técnico, ou de um metafísico, porque a própria metafísica já está disseminada em tudo o que os nossos olhos tocam, como se fosse o dedo apontado que a Criança Nova nos indica.

REFERÊNCIAS

POESIAS – Alberto Caeiro. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000001.pdf

Acesso em: 13/05/11


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