A questão da memória no conto "o perseguido ou conto enigmático" de osman lins

A QUESTÃO DA MEMÓRIA NO CONTO "O PERSEGUIDO OU CONTO ENIGMÁTICO" DE OSMAN LINS

Andréa Francisca da Luz

A configuração política do Brasil, na década de 70, favoreceu o surgimento de uma literatura que procurava substituir velhos modelos de uma sociedade agrária e patriarcalista, por outros que perpassassem os acontecimentos pelo qual o país estava vivenciando, adequando-se, desta forma, a uma nova mentalidade que correspondia ao caráter urbano e capitalista. Surge, então, a narrativa contemporânea rompendo com conceitos tradicionalistas de linearidade e com concepções de totalidade, valorizando com isso a fragmentação. Tal desagregação, geralmente sem foco narrativo, possibilita a abertura da obra e abre um leque de oportunidades de significação.

A narrativa contemporânea além de figurar entre o real e o surreal procura explorar cada vez mais as dimensões do inconsciente humano, bem como as lacunas de memória que caracterizam este inconsciente. Voltar ao passado, relembrar, é um jogo de interpretação de símbolos e significados que tentam unir duas pontas: do passado real com o passado imaginado. Não há como estabelecer uma divisão entre realidade e ilusão, mas observar concepções de realidade entre distintos modos de visão.

Representante desta narrativa contemporânea, Osman Lins observa o processo de tessitura da obra como uma busca individual, transcendente e incessante, da exatidão da linguagem, sendo muitas vezes esta busca um fogo que lhe consome à medida que a narrativa se desenvolve. A escrita de Osman é antes de tudo uma decodificação de símbolos do real, é o alvo certo no cerne da palavra. Pensar a obra de Osman Lins é envolver-se no universo onde as vozes se calam para renascer em gestos, olhares, expressões, sentimentos. É assim que ressurgem suas personagens na coletânea de contos "Os Gestos", cada uma delas renasce exatamente da ausência de uma linguagem que possa suprir as necessidades de comunicação. A descoberta de uma nova linguagem entre o "eu" e o mundo é o foco principal da obra. Porém, outro elemento articulador de uma aparente desagregação é a memória.

Numa possível leitura de "O Perseguido ou Conto Enigmático", que é parte integrante do livro "Os Gestos", iremos observar como a questão da memória se faz presente no texto, manipulando-o do começo ao fim, e dando-nos a idéia de simultaneidade entre passado/presente. A própria trajetória de autoconhecimento do narrador, que é em 1ª pessoa, se dá exatamente através da reconstrução dessa memória.

Segundo Ecléa Bosi (1984: 402), no processo de rememorar ocorre um esforço de reordenação das imagens passadas condicionadas pelo presente do sujeito. Observemos o fragmento abaixo:

"O homem, à minha frente, parece dormir. Tem as pálpebras cerradas e a cabeça oscila como a de um cadáver recente" (p.69).

Note-se como o verbo "parecer", que sugere uma situação transitória, relaciona-se com "cadáver recente" um estado permanente. Talvez, o fato de observar o homem dormindo faça o narrador lembrar da morte de alguém, ou seja, é uma lembrança reconstruída pela orientação do momento atual do narrador.

Toda lembrança é lacunar, pois a memória não dá conta dos vários momentos passados, ela é recriada a partir de nossas necessidades de enxergar "um passado", e não "o passado". De acordo com Bosi (1984: 402), nada é esquecido ou lembrado no trabalho de recriação do passado que não diga respeito a uma necessidade presente daquele que registra. Podemos verificar essa necessidade de recapitular o passado quando o narrador ao observar os galhos das árvores reflete,

"Não posso deixar de imaginar como eram estes, que aves construíram neles seus ninhos ou se alguém enforcou ali uma criança" (p.69).

As imagens de uma criança que possivelmente morreu enforcada, ou foi assassinada, ressurge na memória do narrador envolta em culpas e esquecimentos, como nas seguintes passagens,

"Vejo um ataúde pequeno, estendido numa sala. As velas, em redor, se apagam. Desfaz-se a imagem. Quem estaria ali? Ignoro" (p.69).

"Vejo uma corda sobre um lençol de criança" (p.71).

"Oh! Irmãzinha. Com suas pernas separadas e os braços abertos, lembra um boneco de papel. Sua imagem se fixa em meu ser. Mas os braços pendem; seu corpo balouça, seu corpo balouça, balouça no ar" (p.73).

A lembrança neste conto é um duelo em busca da palavra que refletirá, ou melhor, se adequará ao remorso que esta lembrança incita. As palavras são indiciáticas, elas procuram nos remeter a um vazio crivado de dor e perturbado pelas sombras da culpa. São comuns os usos de palavras como rumores, ruídos, sombras, negror, escuridão, trevas, etc. como configuração de uma mente conturbada e repleta de resquícios do passado.

O lembrar, sendo ponte do esquecer, realiza uma evocação à vida e fomenta o conhecimento do próprio "eu", pois a faculdade de lembrar exige um espírito desperto. De acordo com a mitologia grega, o ritual no oráculo de Lebadéia exigia que antes de entrar no país dos mortos o consultante bebesse de duas fontes: no Lethe, e esquecia sua vida humana; na Mnemosyne, para lembrar o que havia visto no outro mundo. Ora é exatamente isso o que o narrador do conto faz, ele transcende sua condição humana ao vislumbrar a morte e a vida através das recrusdencências de sua memória. É essa situação fronteiriça que desperta o espírito e libera a imaginação, transformando esse momento numa espécie de iniciação como revelação de um mistério, no caso do narrador, o seu sentimento de culpa.

Portanto, a memória também serve como evocação de um remorso da qual o narrador não consegue se desprender, pois ela é "invulnerável, invencível", e o persegue como um fantasma, "alguém me persegue; há alguém correndo ao lado do trem" (p.70).

Seu sentimento de culpa é de tal imensidão que o narrador comenta, "torno-me pesado. A terra já não me sustenta".Mas, o que de fato o atormenta, ter participado de algum assassinato ou não ter evitado a morte de alguém que se chama Luci? Bem, não sabemos, pois as vozes "silentes" apenas representam possibilidades de leitura. Não há um único sentido, mas vários que se abrem à co-autoria do leitor.

Como pôde ser analisada, a memória em "O Perseguido ou Conto Enigmático", é a articuladora dessa desagregação aparente que o texto procura passar. Ela tece a obra a partir dos fios da lembrança e do esquecimento. A co-participação do leitor procura preencher as lacunas deixadas por estas lembranças, sendo ele responsável pelo efeito que o sentido lhe causará. Essas novidades na narrativa apenas apontam algumas das várias contribuições da obra osmaniana, ainda tão pouco estudada, para a literatura contemporânea.

LINS, Osman. O Perseguido ou Conto Enigmático. In: Os Gestos. São Paulo: Melhoramentos, 1975. p. 69-75.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 3ª ed. São Paulo: Edusp, 1984. p. 402.


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