Uma possível análise do poema eros e psique de fernando pessoa

UMA POSSÍVEL ANÁLISE DO POEMA EROS E PSIQUE DE FERNANDO PESSOA

Andréa Francisca da Luz

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Porque à Princesa vem.

A Princesa adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino-

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

Passear pelo universo pessoano é correr o risco de perder-se para em tudo se encontrar; é sentir-se de todas as maneiras, e em todas as formas. Navegar pelo seu oceano é naufragar nos abismos profundos do inconsciente que o domina, morrendo para o mundo, mas renascendo para a vida. Há em Pessoa algo que intriga porque ele desconstrói a futilidade que ainda existe na alma humana, para em seguida construir a alma divina. Como o mito, ele é Clássico por si mesmo, não para imitar a arte, mas para ser eterno como uma lenda. É praticamente impossível estudar Fernando Pessoa ignorando-lhe a chama fumegante do conhecimento iniciático e esotérico que lhe predomina, e por isso mesmo o imortaliza. Um bom exemplo desse simbolismo místico, de busca através do autoconhecimento da alma, é o poema "Eros e Psique". O poema é composto estruturalmente por trinta e cinco versos de sete sílabas agrupados em sete estrofes, simbolicamente, o número sete designa totalidade, e esta totalidade cabalística pode ser observada, não só em todo o poema, mas principalmente, nos dois últimos versos da última estrofe, onde há a osmose entre o ser consciente e o ser inconsciente que habita o espírito humano.

"E vê que ele mesmo era

a Princesa que dormia."

O aspecto mítico sugerido pelo título do poema, traz a figura lendária de Eros que é o Deus do Amor da mitologia grega, sendo este último filho da deusa Afrodite, e que possui um caráter corrupto e provocador; Psiquê é uma jovem donzela que de tão arrebatadora beleza era adorada como uma deusa, angariando desta forma os ciúmes de Afrodite. A narrativa tradicional do amor entre Eros e Psique procura ressaltar que na verdade ambos são um só, como as faces de uma moeda. E é esse ponto que Fernando Pessoa trabalha no poema, unindo as forças polarizadoras do ser, demonstrando como são unas e osmóticas, como o yang e yin do Tao.

A trama do mito de Psique revela que apesar de todas as complicações e sofrimentos pelos quais ela passou, teve em Eros o seu pólo de referência, fazendo da ação um jogo entre os planos existenciais do homem, como queda e ascensão, a superioridade e a inferioridade, o ser divino e eterno, e o ser material e humano. Pessoa, como um grande conhecedor da alma do homem, simboliza o conflituante universo dessa alma aludindo ao imaginário lendário dos contos de fadas,

"Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada."

Levando em conta que as forças centrais da alma estão polarizadas em dois focos: um masculino e um feminino, e que se completam reciprocamente num impulso vivo e contínuo, podemos afirmar que Fernando Pessoa não só absorveu este pensamento como o descreve. Nas 2ª e 4ª estrofes, ele exprime a polaridade masculina de poder, autoridade e determinação imbricada num objetivo infalível, pois o ser masculino além de vencer o bem e o mal, deve ser determinado o suficiente para encarar  o seu próprio destino, que independe de seu livre-arbítrio.

"Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,"

O caráter lógico que domina o pólo masculino do ser, é o mesmo que o impulsiona para seguir adiante, inibindo-lhe os receios que na polaridade intuitiva feminina prevalece.

"Longe o Infante, esforçado

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado."

Essa força feminina que passeia pelos mistérios ocultos do inconsciente, ativando nossa percepção e intuição, é a mesma que aflora a sabedoria e passividade da espera, porque nesta espera a alma se diviniza.

"A Princesa adormecida,

Se espera, dormindo espera."

É importante ressaltar como a força prática e lógica da polaridade masculina encaminha-se para a força feminina que mobiliza o sentimento e a sensibilidade, relacionando mundo interior com mundo exterior, mundo material com mundo divino.

"E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro

Chega onde em sono ela mora."

A busca da alma pelo ponto de equilíbrio através do "caminho do meio", como professam os orientalistas, é uma estrada que leva o ser a conhecer-se, e neste autoconhecimento sublimar-se, talvez, essa busca seja a do próprio poeta que não se contenta com a superfície das coisas, mas penetra-as absorvendo-lhes a essência, trilhando iniciasticamente a sua jornada,

"Pelo processo divino

Que faz existir a estrada."

A persistência do desejo de desnudar o espírito humano, é simbolizado por Pessoa através da figura da "hera", sendo esta a representante do ciclo reencarnatório do espírito, que sempre retorna para purificar-se de suas imperfeições, transitando entre o mundo divino e o mundo físico, daí o gesto de "erguer a mão" como símbolo de ligação entre estes dois mundos.

"Ergue a mão, e encontra  hera"

Assim como a alma fragmentada do homem, assim como o homem fragmentado Pessoa, assim como o Eros e a Psiquê, princípios unificados dos contrários, que se atraem e se repelem, e que impulsiona a vida, e que impulsiona o espírito, e que impulsiona o universo, sempre, sem fim, como um ciclo que não se conclui porque não tem começo, assim é a obra de Fernando Pessoa, assim é Pessoa.

REFERÊNCIAS

POESIAS – Fernando Pessoa. Disponível em: http://www.pessoa.art.br/?p=575 . Acesso em: 13/05/11


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