Bem-vindo, Francisco!

Sou um guitarrista de rock – com profundos conhecimentos técnicos que abrangem a vasta gama de possibilidades permitidas por três acordes básicos -, sócio fundador de uma das mais contestadoras bandas brasileiras – tivemos músicas censuradas para execução pública no começo da carreira e não fosse pela decisão de alguns radialistas de incluí-las na programação com certeza ainda viveríamos sob as ferraduras de uma ditadura militar -, autor e co-autor de canções/hinos, entre muitas outras, como Polícia, Família, Lugar Nenhum e Vossa Excelência, – exemplos ora raivosos, ora abertamente cínicos, ora cômicos, ora simplesmente bem humorados, sempre brilhantes, da indignação e da não aceitação das coisas como são -, tendo escrito vários artigos polêmicos e corajosos aqui postados defendendo posições a favor da legalização das drogas, do aborto e contra o preconceito e a intolerância em geral, além de luzidias reflexões e manifestos pró-ateísmo e visões críticas de nossa política, sociedade e costumes, isso sem citar os excelentes romances que publiquei – pródigos em destilar pessimismo e amargor em jorros não estancáveis -, e portanto nada justifica que eu – que sim, tenho de manter a minha fama de mau e lutar muitas vezes contra a visão idealizada e tatibitati que fazem de meu casamento e de minha vida familiar – tenha me debulhado em lágrimas feito o mais patético dos vovôs sentimentalóides ao estrear como avô no sábado passado no momento em que conheci, no berçário, Francisco, meu netinho. Dizer o quê? Que no peito dos guitarristas de punk rock também bate um coração? Que virei um vovô babão? Que o primeiro neto a gente nunca esquece? Que estou “viajando” em todas as acepções da palavra? Que estou “me achando”? Melhor não dizer nada e voltar ao planeta Terra. Bem-vindo, Francisco, a esse vasto mundo de loucas contradições e doces surpresas!

Por Tony Bellotto Tags: francisco, neto, vovê

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