Cei: qual o seu papel na sociedade?

RESUMO: Este artigo apresenta resultados do projeto intitulado "CEI: qual o seu papel na sociedade?", desenvolvido no âmbito da Linha de Pesquisa em Educação Infantil, do Programa de Graduação em Pedagogia da Faculdade Integrada Renascença – UNIESP. A pesquisa consistiu em analisar o porque e para que surgiram os CEIs, assim como conhecer a visão dos pais e professores sobre eles. Procurou-se situar o CEI conforme o Parecer CNE/CBE nº 20/2009, aprovado em 11 de novembro de 2009, que define a obrigatoriedade da Educação Infantil. A metodologia delineou-se por meio de levantamento bibliográfico, documental e coleta de dados realizada por meio de entrevistas realizadas com cinco pais e quatro professores. Ferreira (2005), Mello (2005) e Kramer (1994) foram leituras inicias para a realização desse trabalho. Verificou-se que os CEIs foram criando sua identidade através da história para tornar-se educação. Observamos também que pais e professores almejam uma melhoria dos CEIs, porém possuem uma visão diferente do que sejam essas melhorias.

Palavras-chave: CEI; professores; pais; educação e direito da criança.

INTRODUÇÃO

Esta é uma produção intitulada "CEI: qual o seu papel na sociedade?" A pesquisa bibliográfica e a coleta de dados (entrevistas) teve como objetivo analisar porque e para que surgiram os CEIs, assim como conhecer a visão dos pais e professores sobre eles. Para as entrevistas escolhemos seis pais e quatro professores que trabalham e moram nas adjacências de um CEI localizado na zona leste de São Paulo.

Quanto ao CEI, este foi escolhido por fazer parte de um CEU que atende a um público diversificado e, também, devido a sua localização que atinge não apenas uma, mas três comunidades carentes que se situam ao redor.

O critério utilizado para escolha dos quatro professores que compõem o corpo de nossa pesquisa foi o tempo de carreira. Entrevistamos um professor com mais ou menos vinte anos de carreira, um professor com mais ou menos dez anos de carreira, um professor com mais ou menos três anos de carreira, sendo que todos esses trabalham somente nos CEIs e um professor que trabalha ao mesmo tempo no CEI e na EMEF.

Referente aos seis pais que foram entrevistados os critérios foram os seguintes: quatro pais que tem os filhos matriculados no CEI, um pai que pretende matricular seus filhos no CEI e um pai que não pretende matricular seus filhos no CEI. Quanto a variação de número de quatro pais para um ter ocorrido, foi porque em meio as entrevistas sentimos a necessidade de ouvir vários pais que tem seus filhos no CEI para compararmos se as opiniões são semelhantes entre si ou não. Quanto à entrevista com o pai que não pretendia matricular o seu filho no CEI, não foi possível realizar, pois não encontramos nenhum pai que não tivesse o interesse de matricular o seu filho no CEI.

Os estudos históricos constituirão o instrumento fundamental do desenvolvimento desta pesquisa, e para isso utilizaremos como base teórica textos de autores como Ferreira (2005), Mello (2005) e Kramer (1994), como também recolheremos informações contidas na legislação e documentos oficiais destinados a Educação Infantil, como os Referenciais Curriculares Nacionais para Educação Infantil e as Orientações Curriculares/SME-SP.

A HISTÓRIA DO DA EDUCAÇÃO INFANTIL DO BRASIL

De acordo com o dicionário Aurélio, a palavra creche vem do francês e significa: "estabelecimento destinado a dar assistência a crianças de tenra idade, durante o dia; infantário". (FERREIRA, 2010)

Como instituição: "Uma creche é um estabelecimento educativo que ministra apoio pedagógico e cuidados às crianças com idade até aos três anos. Conforme o país e o seu sistema educativo, a creche pode integrar-se na educação infantil ou na educação pré-escolar". (WIKIPEDIA, 2011)

A história das creches no Brasil, inicia-se com a chamada "roda dos expostos", que através da Igreja Católica desempenhava o papel de acolher e cuidar de crianças carentes, como é citado por Marcílio:

A roda dos expostos é um dispositivo com origem medieval e italiana. Inicialmente utilizada para manter o máximo de isolamento dos monges reclusos, é posteriormente adotada também para preservar o anonimato, mas agora daqueles que depositam nela bebês enjeitados. No Brasil, o acolhimento de órfãos através da roda se estabelece no século XVII e segue a tradição ibérica, segundo a qual caberia a Santa Casa de Misericórdia o monopólio da assistência a infância abandonada, contando, todavia com o auxílio da respectiva câmara municipal. Desde então podemos observar recorrentes tensões entre a entidade religiosa e o poder local, principalmente pela obrigação pública de contribuir financeiramente para a manutenção da Santa Casa. (1998)

Na década de XX, a Santa Casa deixa de ser a única responsável pelo cuidado com as crianças, dividindo essa tarefa com outras instituições tais como: Centros Espíritas e instituições de ordem filantrópica. Logo em seguida (1930), a responsabilidade foi assumida pelas prefeituras que para tentar sanar os problemas criaram as creches.

As creches surgiram, não somente para o cuidado de crianças abandonadas, mas também para cuidar de crianças das classes populares no momento em que houve uma mudança do papel da mulher na sociedade que até então, era somente dona de casa e  sua função resumia-se na criação e educação dos filhos. O ápice da mudança ocorreu na segunda metade do século passado devido Revolução Industrial [1], quando um grande número de mulheres adentrou no mercado de trabalho.

Nos anos 70, a educação infantil era vista de maneira assistencialista e compensatória, pois de acordo com teorias desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa, o fracasso escolar de crianças de baixa renda era fruto de sua privação cultural. Segundo Oliveira:

conceitos como carência e marginalização cultural e educação compensatória foram então adotados, sem que houvesse uma reflexão crítica mais profunda sobre as raízes estruturais dos problemas sociais. Isso passou a influir também nas decisões de políticas de Educação Infantil (2005, p.109).

Devido à pressões por parte das camadas populares nos anos 80, mais precisamente em 1988, com a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, passa a ser reconhecido oficialmente a educação infantil como um direito da criança e um dever do Estado:

Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

IV - educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade; (Redação dada pela Emenda Constitucional no 53, de 2006).

XXV - assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até 5 (cinco)  anos de idade em creches e pré-escolas; (BRASIL, 1988)

Nos anos 90, amplia-se a concepção de criança. Baseando-se em Vigotsky a criança agora é vista como um ser social, onde sua aprendizagem ocorre através de suas interações com o meio. Nesse momento, há um grande avanço na educação infantil, como afirma Machado e Paschoal:

Desse modo, verifica-se um grande avanço no que diz respeito a criança pequena, uma vez que a educação infantil, além de ser considerada a primeira etapa da educação básica, embora não obrigatória, é um direito da criança e tem o objetivo de proporcionar condições adequadas para o desenvolvimento do bem-estar infantil, como o desenvolvimento físico, motor, emocional, social, intelectual e a ampliação de suas experiências. (2009, p.86)

Hoje, as instituições responsáveis pelo atendimento infantil, de zero a três anos, são denominadas CEI (Centro de Educação Infantil). Os CEIs em São Paulo visam em sua dimensão sócia educacional favorecer o desenvolvimento da auto-estima e a capacidade de autodeterminação, de acordo com conhecimentos da situação social dos alunos nesta faixa etária. Espera-se, através de um trabalho sócio educativo, garantir não apenas o conjunto de direitos estabelecidos no plano legal, mas acima de tudo propiciar educação, entendida como oportunidade de inclusão social, contribuindo com a conquista de uma sociedade livre, justa e solidária, que permita a erradicação da situação de vulnerabilidade, risco pessoal e social e suprimir a marginalização, cumprindo desta forma, os princípios explicitados em nossa constituição de 05 de outubro de 1988.

Atualmente os CEI's na cidade de São Paulo tem como objetivo  melhorar a situação das crianças que não encontram cuidados e educação, enquanto seus pais lutam diariamente pela sobrevivência. Hoje a população tem consciência de que o CEI é um direito constitucional das crianças, porém ainda têm uma visão assistencialista como podemos confirmar através da fala do pai J.H.B.: "Com mais conforto e com médicos pediatras para acompanhar as crianças diariamente, para que quando uma criança passar mal, a mãe o pai não ter que se deslocar do trabalho com tanta pressa para socorrer o filho". (Entrevista concedida as autoras)

A EDUCAÇÃO INFANTIL NO CEI

A LBD prevê que: "A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até cinco anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação família e da comunidade" (LBD, artigo 29, 1996).

Mas educação infantil para quê? Vale ressaltar que conforme a lei acima citada, a creche e a pré-escola têm, portanto, uma função de complementação e não de substituição da família como muitas vezes foi entendido, sendo assim, o CEI deve ter um trabalho conjunto com a família para que venha propiciar uma educação qualitativa para a criança.

Educação infantil para quem? A própria constituição brasileira reconhece a creche como uma instituição educativa, "um direito da criança, uma opção da família e um dever do Estado". Assim, nem os pais, nem as instituições de atendimento, nem qualquer setor da sociedade ou do governo poderão fazer com as crianças o que bem entenderem ou o que considerarem válido. (BRASIL, 1988)

A creche tem sido cada vez mais reivindicada por um número crescente de famílias de diferentes camadas sociais, o que diversifica o público atingido pela mesma, porém não modifica o fato das crianças estarem em um processo de aprendizagem basicamente lúdico, que vai da fantasia para realidade e vice e versa. Segundo Cruz e Fontana:

Brincar é, sem dúvida, uma forma de aprender, mas é muito mais que isso. Brincar é experiementar-se, relacionar-se, imaginar-se, expressar-se, compreender-se, confrontar-se, negociar, transfromar-se, ser. Na escola, a despeito dos objetivos do professor e de seu controle, a brincadeira não envolve apenas a atividade cognitiva da criança. Envolve a criança toda. È prática social, atividade simbólica, forma de interação com o outro. Acontece no âmago das disputas sociais, implica constituição do sentido. É criação, desejo, emoção, ação voluntária. (1997, p.139)

Educação Infantil, por quê?  Segundo o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil, os objetivos gerais são:

A prática da educação infantil deve se organizar de modo que as crianças desenvolvam as seguintes capacidades:

desenvolver uma imagem positiva de si, atuando de forma cada vez mais independente, com confiança em suas capacidades e percepção de suas limitações;

• descobrir e conhecer progressivamente seu próprio corpo, suas potencialidades e seus limites, desenvolvendo e valorizando hábitos de cuidado com a própria saúde e bem-estar;

• estabelecer vínculos afetivos e de troca com adultos e crianças, fortalecendo sua auto-estima e ampliando gradativamente suas possibilidades de comunicação e interação social;

• estabelecer e ampliar cada vez mais as relações sociais, aprendendo aos poucos a articular seus interesses e pontos de vista com os demais, respeitando a diversidade e desenvolvendo atitudes de ajuda e colaboração;

• observar e explorar o ambiente com atitude de curiosidade, percebendo-se cada vez mais como integrante, dependente e agente transformador do meio ambiente e valorizando atitudes que contribuam para sua conservação;

• brincar, expressando emoções, sentimentos, pensamentos, desejos e necessidades;

• utilizar as diferentes linguagens (corporal, musical, plástica, oral e escrita) ajustadas às diferentes intenções e situações de comunicação, de forma a compreender e ser compreendido, expressar suas idéias, sentimentos, necessidades e desejos e avançar no seu processo de construção de significados, enriquecendo cada vez mais sua capacidade expressiva;

• conhecer algumas manifestações culturais, demonstrando atitudes de interesse, respeito e participação frente a elas e valorizando a diversidade. (BRASIL, 1998. p. 63)

De acordo com a legislação, todos são obrigados a respeitar os direitos definidos na Constituição do país que reconheceu a criança como um cidadão em desenvolvimento. A Constituição de 1988 faz referência a direitos específicos das crianças e define como direito da criança de 0 a 5 anos de idade e dever do Estado o "atendimento em creche e pré-escola". A Constituição nomeia formas concretas de garantir, não só amparo, mas principalmente a educação das crianças. Vejamos:

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

III - pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;

IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais

V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria  manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei.

Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

IV - educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade; (Redação dada pela Emenda Constitucional no 53, de 2006).

XXV - assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até 5 (cinco)  anos de idade em creches e pré-escolas; (BRASIL, 1988)

Com a criação do ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente, lei 8069/90, os municípios são responsáveis pela infância e adolescência, criando as diretrizes municipais de atendimento aos direitos da criança e do adolescente e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, criando o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e o Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente. Sobre isso o ECA assim estabelece:

Art. 1o Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.

Art. 2o Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre doze e dezoito anos de idade.

Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade.

Art. 3o A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

As diretrizes curriculares, segundo a LDB, devem ser estabelecidas pela União, sendo auxiliada pelos Estados, Distrito Federal e Municípios. Essas diretrizes constituem-se normas fixas, que irão reger a formação necessária da criança, em todo território nacional.

No contexto da legislação, o lúdico, a brincadeira, vão constituir as práticas educacionais, o que contribuirá grandemente para a formação do social. Por meio da fala da mãe V. podemos constatar a influência do trabalho realizado no CEI, na vida social da criança: "A minha filha depois que foi para a creche mudou bastante e eu só tenho que elogiar o trabalho que está sendo feito por todas as tias daí". (Entrevista concedida as autoras)

Para Oliveira:

A brincadeira fornece, pois, ampla estrutura básica para mudanças da necessidade e da consciência, criando um novo tipo de atitude em relação ao real. Nela aparecem a ação na esfera imaginativa numa situação de faz-de-conta, a criação das intenções voluntárias e a formação dos planos da vida real e das motivações volitivas, constituindo-se, assim, no mais alto nível de desenvolvimento pré-escolar. (1994, p. 43-46)

As crianças de zero à cinco anos têm características e necessidades diferenciadas das demais idades, conforme nos afirma o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil:

As crianças possuem uma natureza singular, que as caracteriza como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. Nas interações que estabelecem desde cedo com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que as circunda, as crianças revelam seu esforço para compreender o mundo em que vivem as relações contraditórias que presenciam e, por meio da brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas e seus anseios e desejos.

Neste sentido temos que nos preocupar em garantir que essas características e necessidades, sejam atendidas de maneira global. A educação infantil deve ser um lugar de construção de conhecimentos sem se desligar do mundo infantil, conhecendo melhor as especificidades da infância, procurando criar um espaço privilegiado para a produção de cultura infantil, priorizando a garantia dos direitos das crianças ao bem estar, a expressão, ao movimento, a segurança, as brincadeiras, a natureza e ao lúdico.

O ESPAÇO DO CEI NA ATUALIDADE

Os estudos permitiram verificar, por meio dos autores, que os CEIs surgiram a partir do momento em que houve uma mudança do papel da mulher na sociedade que até então, era somente dona de casa e sua função resumia-se na criação e educação dos filhos.

De acordo com Nunes quando surgem as vilas operárias e também algumas creches e escolas maternais para atender uma demanda crescente, essas poucas escolas eram vistas apenas como paliativos, ou seja: "a creche aparece como uma solução que é apresentada, pelos setores ligados à assistência social, como um mal necessário", um sintoma de um desajuste moral, econômico e de uma sociedade mal organizada. (2000, p. 72)

Entendidas como um "mal necessário", as creches eram planejadas como instituição de saúde, lactário, com auxiliares de enfermagem e preocupação com a higiene do ambiente, onde o cuidar predominava sobre o educar, evidenciando o assistencialismo da época, conforme esclarece Ferreira, Oliveira e Mello:

o trabalho junto às crianças nas creches nesta época era cunho assistencial-custodial. A preocupação era com alimentação, higiene e segurança física das crianças. Um trabalho voltado para a educação, para o desenvolvimento intelectual e afetivo das mesmas não era valorizado. (2005, p. 19)

Com o passar dos anos, aumentaram o número de creches, tanto públicas quanto particulares, porém, o atendimento proposto por elas tomou outro enfoque onde o "educar" predomina sobre o "cuidar", sendo o primeiro não necessariamente mais importante que o segundo ou vice-versa, pois ambos se complementam.

Segundo Oliveira e outros: "o atendimento por elas prestado, contudo, propunha garantir o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças, já dentro de uma visão da creche como instituição educacional..." (2005, p. 22)

Confirmando a citação acima, Kramer afirma que:

a proposta está voltada à educação para a cidadania: suas metas básicas são a cooperação e a autonomia, as crianças são encaradas como pequenos cidadãos e cidadãs, e o trabalho escolar é entendido como o que deve garantir o acesso aos conhecimentos produzidos historicamente pela humanidade, e formar, simultaneamente, indivíduos críticos, criativos e autônomos, capazes de agir no seu meio e transformá-lo (1994, p. 13).

Pensando no caminho já percorrido pelo CEI, que tanto tem a contribuir para uma educação infantil de qualidade, as políticas públicas voltadas para essa educação, devem ter o cuidado para não torná-la novamente mero assistencialismo por pressão da sociedade vigente, que ainda tem dificuldades em reconhecer o trabalho pedagógico no CEI.

De acordo com Kramer:

As crianças são seres sociais, têm uma história, pertencem a uma classe social, estabelecem relações segundo seu contexto de origem, têm uma linguagem, ocupam um espaço geográfico e são valorizadas de acordo com os padrões do seu contexto familiar e com a sua própria inserção nesse contexto. Elas são pessoas, enraizadas num todo social que as envolve e que nelas imprime padrões de autoridade, linguagem, costumes. Essa visão de quem são as crianças-cidadãos de pouca idade, sujeitos sociais e históricos, criadores de cultura - é condição para que se atue no sentido de favorecer seu crescimento e constituição, buscando alternativas para a  educação infantil que reconhecem o saber das crianças (adquirido no seu meio sócio-cultural de origem) e oferecem atividades significativas, onde adultos e crianças têm experiências culturais diversas, em diferentes espaços de socialização (2010, p. 2)

Faz-se necessário que nós adultos e educadores olhemos a criança como alguém diferente de nós, de nossas expectativas, daquilo que projetamos para elas, pois, em meio as entrevistas realizadas, constatamos que nós mesmos, os adultos não nos entendemos quando o assunto diz respeito ao desenvolvimento infantil.

Veja algumas divergências entre pais e professores quando questionados sobre o assunto: "Deve ser mais bem estruturado tanto em relação aos materiais, como também na organização dos projetos e trabalhos pedagógicos". (professor A) "A creche do futuro seria: Todo espaço reprojetado priorizando as necessidades das crianças e dos professores. Trocadores mais altos; salas mais amplas; sala de vídeo; brinquedoteca; alimentação adequada; Centro de enfermaria; Centro odontológico; etc." (professora M.B.,2010) Cuidar redobradamente das crianças e ter enfermeiras para auxílio emergência." (pai O.F.) e "Com mais conforto e com médicos pediatra para acompanhar as crianças diariamente, para que quando uma criança passar mal a mãe ou o pai não ter que se deslocar do trabalho com tanta pressa para socorrer o filho". (Entrevista concedida as autoras)

Contrapondo-se as falas acima, que enfatizam tanto o assistencialismo como a questão da infra-estrutura, muitas vezes deixando de lado o lúdico, as Orientações Curriculares nos trazem a visão do que realmente acontece com a criança quando elas não fazem nada na CEI, só brincam:

Estudos feitos na Antropologia, Sociologia, Psicologia, Lingüística e outras áreas do conhecimento têm apontado que brincar é o principal modo de expressão da infância, a ferramenta por excelência para a criança aprender a viver, revolucionar seu desenvolvimento e criar cultura. A criança teria na brincadeira que faz com outra criança, ou sozinha, oportunidade para usar seus recursos para explorar o mundo, ampliar sua percepção sobre ele e sobre si mesma, organizar seu pensamento e trabalhar seus afetos, sua capacidade de ter iniciativa e ser sensível a cada situação.

Em especial o brincar de faz-de-conta é apontado por diferentes pesquisadores como ligado à promoção da capacidade de imaginar e criar pela criança.

Tais estudos têm ainda revelado que a brincadeira é uma atividade que evoluiu com a transformação sócio-histórica das comunidades humanas e continua a se modificar nas condições concretas de vida das populações, em particular da população infantil em nossa sociedade. Nesta, ao lado de uma ampliação fantástica de brinquedos fabricados e tornados objetos de desejo de consumo das crianças, há um crescente individualismo que se reflete sobre elas e o seu brincar. Nesse quadro preocupante, a ser considerado com atenção pelas equipes de CEIs, creches e EMEIs quando da elaboração de seu projeto pedagógico, a educação infantil muito pode fazer no sentido de re-significar o brincar da criança.

Brincar é uma atividade aprendida na cultura que possibilita que as crianças se constituam como sujeitos em um ambiente em contínua mudança, onde ocorre constante recriação de significados, condição para a construção por elas de uma cultura de pares, conjunto relativamente estável de rotinas, artefatos, valores e interesses que as crianças produzem e partilham na interação com companheiros de idade. Ao brincar com eles, ascrianças produzem ações em contextos sócio-histórico-culturais concretos que asseguram a seus integrantes, não só um conhecimento comum, mas a segurança de pertencer a um grupo e partilhar da identidade que o mesmo confere a seus membros. (2007, p.54-55)

Neste contexto educacional, a criança vai se desenvolvendo numa infância influenciada pela cultura, pela brincadeira e pelo brinquedo, que contribuirá para a sua socialização, sua criatividade, a sua ludicidade, suas escolhas, suas descobertas, seus sentimentos, sua aprendizagem e suas interações com o outro.

Por meio das entrevistas realizadas no CEI, a professora M.B. relata que: "sua primeira impressão referente à creche, foi de um lugar onde as crianças seriam apenas cuidadas e a preocupação seria apenas com a higiene e alimentação, por se tratar de crianças tão pequenas", e a professora A. quando questionada sobre o mesmo assunto, no diz que: "Aquilo me pareceu um depósito de crianças". Hoje a visão delas é diferente, pois em sua prática suas ações são planejadas e com objetivos pré-definidos, visando sempre à criança, como deixa claro em suas falas a professora M.B.: "Hoje eu vejo que não é só o cuidar. Temos que planejar nossas ações e elas têm objetivos sempre pensados nas crianças, ou seja, nada solto ou largado", e conforme confirma a professora A.: "Percebi que as crianças não ficam à toa, existe uma rotina a ser seguida; atividades, alimentação, higiene etc." (Entrevista concedida as autoras)

Por outro lado, embora a visão que os pais tenham do CEI hoje, seja considerada boa pela maioria, quando questionados sobre quais melhorias que poderiam ser feitas, ou seja, como deveria ser a creche do futuro, muitos retornam ao cunho assistencialista, o que pode ser confirmado em relatos feitos por O. F.: "(...) Cuidar redobradamente das crianças e ter enfermeiras para auxílio emergência.", e confirmados por J.H.: "Com mais conforto e com médicos pediatra para acompanhar as crianças diariamente, para que quando uma criança passar mal a mãe ou o pai não ter que se deslocar do trabalho com tanta pressa para socorrer o filho". (Entrevista concedida as autoras)

Vale aqui ressaltar, que embora opiniões de pais e mestres, sejam de grande importância, não devemos perder o foco da educação infantil que de acordo com a LDB, deve ser: "A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até cinco anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação família e da comunidade" (LBD, artigo 29, 1996).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Que este estudo seja capaz de apontar ao profissional que lida com a aprendizagem de zero a três anos a missão que está sob sua responsabilidade, preenchendo os espaços que estão se abrindo e ainda conscientizar pais e educadores da importância de sua arte dentro do universo educacional: Família-CEI. Contudo, neste espaço a criança se alegra, brinca (lúdico) e retira de todos os momentos o melhor resultado.

Certamente, até mesmo para nossa surpresa, as respostas concedidas nas pesquisas realizadas pelas autoras deste artigo, levaram à conclusão de que os pais, mesmo com uma visão assistencialista, acreditam nos benefícios da aprendizagem através desta prática de ensino. Em dados momentos na análise das respostas ficou evidente, a riqueza cultural.

Cabe ao educador quebrar modelos mentais ou paradigmas e solucionar dúvidas numa perspectiva de aprendizagem imediatas, a médio e em longo prazo. A dimensão educacional influenciou os pais nas respostas de caráter qualitativo que obtivemos com nossas pesquisas. Uma arte de aprender que ganha espaço a cada dia, mas que precisa ser muito bem conduzida para não perder a direção.

O conjunto de resultados de pesquisa coletado neste levantamento revela aspectos importantes sobre a realidade vivida por crianças e professores na CEI: velhas concepções, preconceitos provenientes de uma história brasileira que ainda marca o presente, rotinas e práticas herdadas de tradições assistencialistas como foi dito acima, convivem e resistem às propostas mais generosas dentro das dimensões legais. Segundo Campos, Fülgraf e Wigges:

ainda persistem as concepções mais restritivas quanto à melhoria da qualidade do atendimento, reforçadas muitas vezes por agências internacionais que procuram incentivar serviços de baixo custo, desconsiderando a história vivida no país, os conhecimentos já acumulados sobre as conseqüências dessas experiências e os esforços desenvolvidos por muitos grupos e movimentos na busca de melhorias para a educação da criança de zero a três anos.(2006)

A criança deve ser encarada - desde seu primeiro ano de vida - como sujeito de direitos e formada-informada pelas noções de respeito à diversidade pelos seus mestres.

Esse trabalho nos permitiu contemplar e analisar as diferentes visões, em diferentes épocas e com sujeitos diferentes envolvidos numa mesma situação relacionada ao CEI e, sobretudo reconhecer as mudanças e progressos que já aconteceram e que estão por acontecer.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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gina_principal.

[1] A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo em nível economico e social. Iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX.

Ao longo do processo (que de acordo com alguns autores se registra até aos nossos dias), a era da agricultura foi superada, a máquina foi superando o trabalho humano, uma nova relação entre capital e trabalho se impôs, novas relações entre nações se estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de massa, entre outros eventos.

Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores, como o liberalismo economico, a acumulação de capital e uma série de invenções, tais como o motor a vapor. O capitalismo tornou-se o sistema econômico vigente.

FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolução_industrial


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