A figuração do ser infantil na literatura brasileira

A figuração do ser infantil na literatura brasileira

MAVIANE RAMALHO MACHADO SOUZA[*]

No século XIX surge um conceito novo da infância aliado ao aparecimento das ciências humanas, a psicologia e a pedagogia, e este novo conceito vai separar o adulto da criança, o que a torna o centro da família burguesa.

O Gênero Infantil nasce oficialmente no século XVIII e no Brasil só vai aparecer no século XIX com a modernidade. Este gênero passa a ser tratado como um gênero menor, que não se constitui como os outros. Neste, sujeitos de uma geração escrevem para sujeitos de outra geração com um objetivo pedagógico (Iluminismo, que busca formar um leitor que vai atuar na sociedade).

A criança então é comparada a uma semente a partir da proposição psicológica de que "educai as crianças para que não tenhamos de punir os adultos" (autor desconhecido). A literatura passa a tratar a criança de forma separada do adulto, ou seja, com intenção de educar, ensinar e construir uma subjetividade voltada para uma infância edulcorada e de cunho pedagógico.

O narrador desta literatura toma uma posição onipotente frente ao ser infantil, como um sujeito da verdade e dono da razão a partir de uma tradição canônica, na qual se fala para a criança e da criança utilizando signos que transformam a narrativa da infância em um gênero menor.

Vejamos o poema "A Boneca", de Olavo Bilac, escritor do cânon da literatura brasileira do século XIX.

Deixando a bola e a peteca

Com que inda a pouco brincavam,

Por causa de uma boneca,

Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"

- "É minha!" a outra gritava;

E nenhuma se continha

Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)

Era a boneca. Já tinha

Toda a roupa estraçalhada

E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,

Que a pobre rasgou-se ao meio,

Perdendo a estopa amarela

Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,

Voltando a bola e a peteca,

Ambas, por causa da briga,

Ficaram sem a boneca...

Neste poema o narrador canônico narra o conflito entre duas meninas por causa de uma boneca. Há um efeito moral projetado no poema de modo a propor uma narrativa pedagógica que serve como uma lição para que as meninas não destruam a amizade em virtude de um suposto namorado. O poema recebe uma configuração redonda que se fecha em si mesma, sem deixar um espaço para outra interpretação, ao colocar um narrador autoritário com uma posição assimétrica em relação a narrativa.

O poema condena um comportamento e ensina virtudes. A criança passa a viver então uma vida privada de trabalho, violência, sexo e passa a ser tutelada, desta forma acaba ficando presa aos conceitos burgueses de educação. O narrador deste poema torna a infância um objeto a ser dito de fora, em que a criança tem a voz rebaixada ou apagada "É minha!".

Em 2003, Manoel de Barros publica um poema "Vi uma borboleta" que aproxima e corrobora com a idéia de infância proposta por Clarice Lispector:

Vi uma borboleta

Sentada nos braços da manhã

Ela estava parada

Embaixo de outra borboleta.

Não faziam barulho

Nem piscavam.

Só o vento arregaçava as saias delas.

Neste, a criança já não é mais objeto e passa a ser sujeito, o ser infantil está dentro da cena. Ele vê e reconhece o sexo praticado pelas borboletas e com um tom de malícia destaca na última estrofe a cena do ato sexual. Este procedimento estético faz uma ponte para chegarmos ao estudo da literatura de Clarice Lispector.

Essa autora nega a narrativa canônica, a partir da qual o narrador trata a criança de cima para baixo. Em suas narrativas ditas infantis, Clarice opera com os procedimentos narrativos de pôr em relevo a morte, a dor e a verdade em uma moldura de escrita sem os arranjos postos pela literatura canônica que trata a infância do século XIX, mas também não é a realidade, mas uma região discursiva em que a infância significa em sua literatura.

O narrador de sua literatura desce e a criança sobe criando uma ambigüidade. O narrador fala transvestindo de criança de modo a mimetizar a oralidade infantil e construir uma narrativa ordenada temporalmente.

A autora "tira retratos" e coloca ritmo e melodia na narrativa ampliando a figuração do ser infantil na literatura brasileira moderna.  No início da obra "O mistério do Coelho Pensante", vemos o modo como a autora se posiciona:

_ Peço desculpas a pais, e mães, tios e tias, e avós, pela contribuição forçada que serão obrigados a dar. Mas pelo menos posso garantir, por experiência própria, que a parte oral desta história é a melhor dela.

Ela problematiza o gênero infantil a partir de uma tradição machadiana, ou seja, de uma tradição corrosiva, ela corrói o texto por dentro, desmantelando sua estrutura do início ao fim. A autora não coloca um gesto definido para o leitor infantil interpretar a narrativa, mas desconstrói o espaço iniciático de inserção deste no texto.

Esta corrosão a autora consegue fazer através de um jogo de vozes, como na obra infantil "Quase de Verdade", em que ela retoma a narrativa da "Odisséia", de Homero, resignificando o gênero infantil com a construção da personagem Ulisses, um cachorro que narra a história para a autora.

Em o "O Mistério do Coelho Pensante" Clarice também o faz: "_ Você na certa esta pensando que eu agora diga qual foi o jeito que ele arranjou para sair de lá. Mas aí é que esta o mistério: eu não sei!". Diferente do século XIX no qual todas as respostas eram dadas e o problema já estava pronto, aqui a história não tem moral.

Para ela não existe a separação entre adulto e criança, de modo a igualar os gêneros ao resignificá-los. Vilma Arêas em seu texto "Children's Córner" destaca esta idéia de união na literatura para adultos e crianças: "o bom livro infantil tem de agradar também aos adultos, porque, na verdade, o subsolo da arte é um só" (p. 111).

Ainda na mesma tradição posta por Machado de Assis, Clarice trabalha em seus textos a "tradição circense": tradição farcesca. Ela faz este trabalho a partir de contrates da realidade, parece, mas não é, em um diálogo entre Joãozinho e sua namorada ainda na obra "O mistério do Coelho pensante", ela mostra este trabalho: "Se você não vier me ver, eu te esqueço". Aqui ela não só usa o contraste com a realidade, mas também outro artifício muito encontrado em sua literatura, ela usa o animal para chegar ao humano, ela animaliza o homem desrracionalizando-o e humaniza os animais usando uma deixa que é utilizada por mulheres em relação aos seus companheiros.

Clarice trabalha ainda em seus textos infantis como se fossem laboratórios de experimentação, ela busca compreender o real ligando o racional e irracional – a infância e a idade adulta – o procedimento infantil e o procedimento de criação da narrativa. Aqui ela transforma o ato de escrever em objeto da escrita, tensionando a existência do gênero infantil ao chamar o sujeito literário para construir uma significação, o que apaga a idéia de um narrador onipotente, pois a sua narrativa constitui o sujeito, a criança.

O gesto de Clarice é percebido como anti-romântico, um disfarce, é infantil, mas não é infantil. Além dos procedimentos que foram descritos, ela utiliza outras como: repetição e saturação, aproveitamento de detalhes da realidade e outros.

A saturação e repetição é muito utilizada, por exemplo, em "O Mistério do Coelho Pensante": "fugir da casinhola todas as vezes todas as vezes que não houvesse comida na casinhola". – "Era mentira, porque ela adorava o coelho dela, mas com esse truque a coelha ia arrumando a vida dela". Como aproveitamento de detalhes imediatos, temos: - "Você talvez esperasse outro tipo de idéia, você que tem tantas. Mas acontece que esta história é uma história real".

Estes procedimentos são utilizados para desalienar a criança como sendo um protótipo do adulto perfeito, a criança não é mais a semente, agora ela é problematizada como sujeito da enunciação, deixando de ser tutelada e para ser pensada e tornar-se um ser pensante.

[*] Profª. Na Educação Básica da Pontes e Lacerda/MT.


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