Ivan Lessa: Closure fecha o cerco

Bullying n?o tem mais jeito. Fomos intimidados f?sica e psicologicamente a aceit?-lo e difundir seu uso. Como se fosse uma nova moda, bambol?, rock ou twist.

Antes dos bullies e do bullying surgirem ?ramos serenos, pl?cidos e cordiais. A n?o ser no caso de quebrarmos a cara daqueles com quem implic?vamos, de prefer?ncia um tipinho mais fraco, raqu?tico. Agora, ? isso que se v?. Depois da reforma ortogr?fica, ficou claro que o Brasil topa qualquer besteira.

Disso nossos debochados inimigos se valem e botam pra jambrar. Vale o coringa. Longe est? o tempo em que irish stew virou, no norte, aristu. Havia, na ?poca, ao menos, um certo pudor, que como sempre aliado ? nossa ignor?ncia e falta de imagina??o, nos fazia com que aportugues?ssemos, ou melhor, abrasileir?ssemos as estrangeirices que nos bombardeava de todos os lados.

Nada com um jeit?o mais nosso do que um prato de sopa com aristu no meio da mesa (ou no ch?o do quintal). N?o nos sent?amos em estado de importa??o indevida e, ao menos, por uma vez, deix?vamos as amea?as f?sica da buchada de bode pra l?.

O perigo est? nas palavras que trazem embutidas estados de esp?rito ou atitudes para os quais n?o temos o equivalente. Tecnologia ainda passa. Mas s? um tico e olha l?. De repente, surge o anglicismo e a coisa pega como s? anglicismos sabem pegar. Uma esp?cie de catapora ou dengue l?xico e gramatical. De meu posto de observa??o em Londres, prevejo que o pr?ximo imigrante ilegal pronto para ser recebido com bra?os e pernas abertas em terras do Brasil ? o closure.

Ah, o closure! Conhe?o das s?ries de televis?o e da m?dia americana. Os americanos est?o sempre doidos para dar um closure ao menor pretexto. Ou conseguir, um closure, para todos os seus aborrecimentos. Grandes e pequenos. H? gradua??es das mais s?rias para o closure. Em geral, ele s? ? empregado ap?s uma perda s?ria na vida por motivo de morte. E morte violenta. Estupro com requintes de maldade.

Pelo menos ? o que me mostram os programas policiais, alguns dramalh?es e depoimentos catados nos telejornais americanos. A filha foi morta e violentada. O monstro assassino capturado, julgado e executado por inje??o letal ou cadeira el?trica. Pai e m?e da mo?a, express?es compungidas, declaram para a telereportagem: "Finalmente conseguimos obter closure". E assim por diante.

H? tipos de closure mais sutis. Ou mais grossos. Quando da execu??o de Osama Bin Laden por tropas de elite americanas. Times Square e as cercanias da Casa Branca se encheram de gente com garrafa de cerveja, sorriso bo?al na cara, bandeiras americanas agitadas e cartazes patri?ticos.

O rep?rter ouviu de v?rios a palavrinha a?ambarcadora: closure. N?o juro, mas o presidente Obama tamb?m a usou, quando foi depositar coroa de flores no ground zero (olha outra a? dando sopa) em Nova York. Familiares dos que sucumbiram no monstruoso atentado terrorista trocavam closures como se fossem abra?os de solidariedade. Closures eram flores que se abriam como aqui no dia seguinte ? morte de Diana, Princesa de Gales.

Semana passada, o Taleb? fez voar pelos ares no Paquist?o ao menos 80 cidad?os. Em nome da execu??o de Osama Bin Laden. O Taleb?, cheio de nove horas, n?o entende nada de closure. Para eles ? vingan?a mesmo e estamos conversados. Vingan?a, vingan?a, vingan?a em nome do Profeta clamar, parafraseando o bom Lupisc?nio Rodrigues.

N?o penso em encontrar uma palavra equivalente, como se pode fazer f?cil com bullying e bully. Fechamento era coisa de jornalismo, quando da finaliza??o da parte da reda??o, diagrama??o e montagem de um jornal e revista e mandar para as bancas torcendo para n?o haver bombas e apreens?o seguida de processo judicial. Como veem, dei meus primeiros passos na imprensa nos 21 anos da ditadura militar, que acabou sem closure nenhum frise-se.

Closure, para quem se der ao trabalho de googlar um pouco, ? um termo ligado ? psicologia popular americana. Refere-se ? conclus?o de um evento ou acontecimento traum?tico na vida de algu?m. A palavrinha ficou popular ontem mesmo nos EUA, por volta de 1990. Tamb?m se fala em closure cognitiva, definida como o desejo de se obter conhecimento definitivo sobre uma quest?o. Portanto, o que os psic?logos l? querem dizer ? que um indiv?duo tem a necessidade de chegar a uma solu??o firme sem ambiguidades.

Mesmo assim, eu que sou c?tico, prefiro cantar com Linda Batista que encontraram um desafeto ou inimigo meu bebendo e chorando nas mesas de um bar. E eu gostei tanto. Vingan?a mesmo. Pura e simples. Sem frescuras.

NOTEBOOK

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