Produção de minhoca para alimentação de peixes de aquário

Introdução

            Alimentos naturais ou alimentos vivos são muito utilizados para alimentação de pequenos animais (peixes, répteis, anfíbios e aves).

            Os alimentos preparados geralmente são suficientes para o sustento, mas a adição de alimentos vivos ou a sua forma congelada é praticamente uma obrigação para o condicionamento de desova de peixes (AXEROD & WORDERWINKLER, 1972).

            A alimentação viva é recomendada, pois apesar das técnicas de alimentação artificial estarem bem desenvolvidas, algumas espécies apresentam taxas de crescimento mais elevadas na natureza do que em viveiros, isto pode estar relacionado ao fato de que o alimento natural apresenta determinadas enzimas, hormônios e outros reguladores e fatores de crescimento não encontrados nos alimentos artificiais (CRISPIM et al., 1999).

            Apesar das vantagens no uso de alimentos vivos, as variedades, mesmo em lojas especializadas, ficam extremamente restritas a algumas poucas opções, normalmente, artêmias e enquitréias. A possibilidade de produção de outros alimentos vivos de forma simples seria uma opção a mais para enfrentar a escassez destes produtos. Dentre os alimentos vivos que podem ser produzidos, tem-se a minhoca-vermelha-da-califórnia (Eisenia foetida) (figura 01) que se adapta facilmente às condições de cativeiro. O ambiente ideal para estas minhocas, em geral, são solos úmidos (20 a 25%), porosos, fofos, nitrogenados, ligeiramente alcalinos. A ausência de luz é ideal para as minhocas, pois são lucífugas (se afastam da luz), toleram apenas luz vermelha e de pouca incidência (LONGO, 1995). Fiori (2004), afirma que o excesso de calor e frio, umidade e seca são prejudiciais à minhoca, sendo a faixa ideal para Eisenia foetida entre 15° a 20° C.

            As minhocas pertencem ao Filo Annelida que por serem vermes segmentados de divisões similares e parecidas com um anel, são chamados de anelídeos (LONGO, 1995). A maturidade sexual é atingida aos 90 dias, iniciando a reprodução durante o ano todo até enquanto viver. A cada 3 a 4 meses o número de minhocas deve ser multiplicado por 10.

            Para uma comparação dos níveis nutricionais da minhoca viva utilizou-se a farinha de minhoca que também é produzida a partir da minhoca-vermelha-da-califórnia, esta contém altos níveis de proteína (até 78%) e concentra quase todos os aminoácidos essenciais, além de conter feromônio (hormônio sexual), cuja presença torna a farinha afrodisíaca, estimula o acasalamento e a torna enormemente atrativa para os animais (MATOS, 2008). Também apresenta proteína de alta qualidade, com perfil de aminoácidos (HILTON, 1983; TACON et al., 1983) e de ácidos graxos essenciais adequados à alimentação dos peixes (HANSEN & CZOCHANSKA, 1975). Farofa et al., (2007) verificou que nas minhocas da espécie Eisenia foetida alimentadas com 100% de esterco eqüino, o teor de proteína bruta das minhocas após serem processadas em farinha de minhoca é de 59,58%.

            A principal alimentação das minhocas em cativeiros é o composto orgânico obtido através dos processos de compostagem ou esterco curtido (MIGDALSKI, 2001). Alimentos suplementares são constituídos de restos vegetais das cozinhas: cascas de batatas, cenouras, nabos, cascas de frutas ou mesmo frutas inteiras, quando impróprias para o consumo humano, estes quanto mais doces mais apreciados pelas minhocas. Também se pode oferecer às minhocas, ração industrial para caninos umedecidas em água, com resultados satisfatórios (KITAGAWA et al., 2010). Segundo Vieira (2000), os alimentos suplementares devem ser colocados sobre a superfície do canteiro e nunca enterrados porque podem fermentar, esquentando o ambiente e prejudicando ou até matando as minhocas. Alimentos cozidos e carnes com sal não são adequados aos criatórios (ÁVILA, 1996).

Objetivos

            O objetivo deste estudo é cultivar minhocas-vermelhas-da-califórnia (Eisenia foetida)em pequenos espaços e também testar outras fontes de alimentos ofertados às minhocas e metodologias para facilitar o manejo da cultura para que estes sirvam de alimento para pequenos animais carnívoros e um possível material para estudos de ciências, assim como testar a aceitabilidade da minhoca pelos peixes carnívoros.

Material e Método

            Em laboratório, as condições ideais foram conseguidas utilizando-se recipientes de sorvete de 2 litros com alguns furos na tampa para trocas gasosas (figura 02). O substrato utilizado foi uma camada de aproximadamente 5 cm de esterco equino ou bovino, e terra adubada comercializada em lojas de jardinagem (figura 03). Nesta cultura foram introduzidas seis minhocas e o substrato foi coberto com uma camada de folhas de jornal cortadas no tamanho da superfície do substrato ou tecido de algodão grosso também dobrado, ambos umedecidos com água. 

            A umidade da cultura é mantida, molhando-se as folhas de jornal dobrado ou tecido de algodão grosso para que este fique sempre úmido, mas o substrato não fique encharcado (lama).

            Como fonte de alimento e composição do substrato, foram utilizados esterco de equinos e bovinos secos ao sol para eliminar possíveis predadores (sangue-sugas, formigas, etc), sendo, após secagem, esfarelados e umedecidos com água. Restos como cascas, polpas, folhas e talos de vegetais e frutas batidos no liquidificador com água e peneirados, resultaram em um "bagaço" que também foi testado como alimento. 

            Outras fontes de alimento testadas foram as rações para caninos e peixes de marcas variadas previamente umedecidas em água, farinhas como a de aveia e de cereais.

Resultados e Discussões

            Uma das maiores dificuldades da minhocultura é conseguir alimento de forma constante para as minhocas, tais como esterco de bovino, eqüino ou de aves. Neste estudo estes problemas foram sanados oferecendo-se "bagaço" de restos de vegetais e frutas, ração para caninos umedecidos em água, e farinhas, como a de aveia e flocos de cereais.

            Nessa pequena produção, as minhocas estão consumindo todos os alimentos oferecidos e também se reproduzindo, mostrando assim uma adaptação à nova condição de cativeiro e alimentação.

            As minhocas foram oferecidas a peixes ornamentais carnívoros com grande aceitação.

            É importante manter, no mínimo, duas culturas, pois, na perda de uma das culturas, haverá outra para reinício.

Conclusão

            É possível produzir minhoca-vermelha-da-califórnia em pequenos espaços com a finalidade de alimentar pequenos animais carnívoros utilizando-se as técnicas descritas.

            As minhocas foram oferecidas e tiveram boa aceitabilidade pelos peixes ornamentais carnívoros.

            Esta pequena minhocultura pode ser utilizada como modelo de vermicompostagem para aulas de ciências.

Referências

ÁVILA, U. Criação de Minhocas sem Segredo. Guaíba, RS - Editora, Agropecuária LTDA, 1999, 74p. 

AXEROD, H.R. & WORDERWINKLER, W. Encyclopedia of Tropical Fishes - Emphasis on Technique of Breeding.T.F.H.publication - England. 21st. Edition. 1972. 800p.

CRISPIM, M.C.; CAVALHEIRO, J.M.O.; PEREIRA, J.A. AInfluência do Zooplâncton no Crescimento de Peixes em Viveiros de Aquacultura. In: Congresso Brasileiro de Engenharia de Pesca e Congresso Latino-Americano de Engenharia De Pesca, 1999, Olinda, PE. Anais... Olinda: Associação dos Engenheiros de Pesca de Pernambuco, 1999. V.1, p.78-87.

FAROFA, T.S.; VALENTE, B.S.; BRUM JR, B.S.; ALMEIDA, G.R.; CORRÊA, O.O.; MORAES, P.O.; JAHNKE, D.S.; CABRERA, B.R.; XAVIER, E.G. Produção e Análise Química de Farinha de Minhocas Alimentadas com Diferentes Resíduos Orgânicos. Livro de resumos do XVI Congresso de Iniciação Científica (2007).

HANSEN, R.P.; CZOCHANSKA, Z. The Fatty Acid Composition of the Lipids of Earthworms. Journal of the Science of Food and Agriculture, Essex, v.26,p.961-971, 1975

HILTON, J.W. Potential of Freeze-Dried Worm Meal as a Replacement for Fishmeal in Trout Diets Formulations. Aquaculture, Amsterdam, v.32, p.277-283,1983.

 KITAGAWA, A.T.; SALLES, R.O.L.; VEIGA, J.E. Produção Experimental em Laboratório de Minhoca-vermelha-da-california Eisenia foetida (Savigny, 1826) com o uso de Alimentação Alternativa para Dieta de Pequenos Animais.V Jornada Acadêmica do Instituto Superior de Tecnologia de Paracambi - IST, 2010.

LONGO, A.D. Minhoca: de Fertilizadora do Solo a Fonte Alimentar.São Paulo, SP - Editora, Ícone LTDA., 1995,79p.

MATOS, E.H.S.F. Minhocultura - Dossiê Técnico.CDT/UnB - Serviço Brasileiro de Respostas Técnicas - SBRT, 2008, 23p.

MIGDALSKI, M.C. Criação de Minhocas: Guia Prático. Viçosa, MG - Editora, Aprenda Fácil, 2001, 120p.

TACON, A.G.J.; STAFFORD, E.A.; EDWARDS, C.A.APreliminaryinvestigation of the Nutritive Value of Three Terrestrial Lumbric Worms for Rainbowtrout. Aquaculture, Amsterdam, v.35, p.187-199, 1983.

VIEIRA, M.I. Criação de Minhocas. São Paulo, SP - Editora: Prata - edição 1, 1998, 86p.


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