O sol também se levanta

Infelizmente o mês de maio chega ao fim e nada é tão bonito quanto um dia de céu azul em maio, quando o sol brilha como uma gema de ovo. Olhando o sol lembro do título do primeiro romance de Ernest Hemingway, The Sun Also Rises (O Sol Também Se Levanta). É um título muito interessante – e bem Hemingwayano – que imputa ao sol qualidades humanas como a coragem e a capacidade de superação. A notícia de que a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece pela primeira vez a possibilidade de o uso de telefones celulares causar tumores cancerígenos nos cérebros dos usuários me faz pensar que também o sol, tão bonito em maio, pode causar câncer. E nem por isso deixamos de louvá-lo como a um deus pagão.

A notícia mais uma vez reafirma a máxima de que, assim como o sol, o vinho e todas as boas coisas da vida, o celular deve ser usado com moderação. Nunca fui desses que desdenham do telefone celular, e nunca atribuí a ele as características satânicas que muitos lhe atribuem, como incitador de dispersão e papo-furado, além de grande enxerido e inoportuno, sempre a atrapalhar conversas, peças de teatro, filmes, shows, jantares e até declarações de amor.

Por outro lado critico sim seu uso desmedido e a compulsão que muitos têm de atender às chamadas mesmo que estejam concentradas em outra coisa, pela simples curiosidade de “saber quem está me ligando”. A ideia de que você pode ser encontrado em qualquer lugar ou situação também me desagrada, e vai contra meus princípios básicos de privacidade e do direito inalienável de cada um de “perder-se”(em todos os sentidos) de vez em quando.

Quanto a andar nas ruas e ter a sensação de que está todo mundo falando sozinho, eu até acho legal, pois reforça a minha convicção de que o mundo em que vivemos é mesmo uma tragicomédia surrealista. No entanto, reconheço que há situações em que o celular é imprescindível, daquelas em que nos perguntamos, segurando o celular como Hamlet segura o crânio descarnado: como pude viver tanto tempo sem isso? Me refiro a situações como estar preso num congestionamento de trânsito e atrasado para uma reunião. É só ligar e avisar. Ou quando recebo uma mensagem de meu filho adolescente, às quatro da manhã, dizendo: tô bem, pai. Volto pra casa mais tarde.

Como uma garrafa de vinho, ou o sol num fim de tarde em maio, o celular também pode gerar, além de câncer, doce poesia.


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